Lições bíblicas

Ouvidos bem abertos, língua sempre pronta a apregoar as maravilhas de Deus: é disto, portanto, que todos precisamos. E é esta a nossa missão, que é a missão da Igreja, hoje e em todos os tempos.

Domingo XXIII do Tempo Comum

1. «Effatha» - que quer dizer «Abre-te».
Um surdo-mudo: é sobre ele que Jesus pronuncia esta palavra. O resultado é que se tenham aberto os ouvidos deste homem e se lhe tenha soltado a prisão da língua, começando a falar corretamente. E, como consequência, mesmo com a recomendação de Jesus de não contarem nada a ninguém, todos apregoavam o milagre, dizendo: «Tudo o que faz é admirável».

Chegaram, portanto, os tempos messiânicos: realizam-se assim as promessas de Deus ao seu povo, feitas pelos profetas, ao longo dos tempos, no Antigo Testamento. Aquilo que foi prometido tem agora a sua realização plena na pessoa de Jesus: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos», diz-nos, hoje o profeta Isaías. E tudo se transforma com a vinda de Deus, na pessoa do seu Filho: a própria natureza renasce e rejubila, porque chega o tempo da salvação. Abrem-se os olhos do cego e os ouvidos do surdo, o coxo salta e o mudo canta.

Na celebração do Sacramento do Batismo, o último dos Ritos Explicativos é assim apresentado: “O sacerdote, com a mão direita estendida para a criança batizada, diz: «O Senhor Jesus, que fez ouvir os surdos e falar os mudos, te dê a graça de, em breve, poderes ouvir a sua palavra e professar a fé, para louvor e glória de Deus Pai». - Amen”.

Ali, no momento em que nos tornamos cristãos e membros da Igreja, é-nos apontada a missão que Deus nos confia: ouvir a sua Palavra, isto é, acolher a Boa Nova do Evangelho que nos leva à conversão, e professar, anunciar e transmitir este mesmo Evangelho. Portanto, somos amados, chamados e enviados. Se Jesus e a sua Palavra são para nós um bem e uma riqueza muito grande, sentimos também a necessidade de não guardar só para nós este tesouro, mas, pelo contrário, sentimo-nos enviados a levá-lo aos irmãos que ainda não O conhecem, não O seguem, ou que andam muito longe d’Ele. Ouvidos bem abertos, língua sempre pronta a apregoar as maravilhas de Deus: é disto, portanto, que todos precisamos. E é esta a nossa missão, que é a missão da Igreja, hoje e em todos os tempos.

2. E nós?
Não estaremos, tantas vezes, surdos à Palavra de Deus que ouvimos nas celebrações sem prestar a devida atenção?

Não estaremos também, tantas vezes, surdos aos apelos e às necessidades dos irmãos, a precisar do nosso auxílio e da nossa presença amiga?

Não ficaremos também, tantas vezes, mudos quando é preciso proclamar as maravilhas de Deus e o seu amor por todos nós, sem aceção e distinção entre pessoas?

Não ficaremos também, tantas vezes, mudos quando é preciso dar o testemunho da fé, proclamar o direito e a justiça, anunciar o valor de cada filho e filha de Deus?

Diz-nos ainda hoje o Apóstolo S. Tiago: «Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam?»

No mesmo sentido vão as palavras de S. Vicente de Paulo, o patrono universal das obras de caridade: «Não devo considerar um pobre camponês ou uma pobre mulher segundo o seu aspeto exterior, nem segundo o que dá a entender o alcance da sua inteligência; tanto mais que, muitas vezes, quase não têm aspeto de gente, nem inteligência de pessoas racionais, de tal modo são grosseiros e terra a terra. Mas virai a medalha e vereis, à luz da fé, que o Filho de Deus, que quis ser pobre, está representado para nós na presença destes pobres; que quase não tinha aspeto de homem na sua paixão e que passava por louco na ideia dos Gentios e por pedra de escândalo na dos Judeus; e com tudo isso, qualifica-se de evangelizador dos pobres: Enviou-me a evangelizar os pobres. Ó meu Deus! Como faz bem ver os pobres, se os consideramos em Deus e na estima que Jesus Cristo teve por eles!»

Esta é também uma mensagem muito importante para os dias de hoje.

Pe. José Carlos, CM