Lições bíblicas

Que a celebração deste Domingo nos ajude a questionar a forma como cada um acolhe o chamamento do Senhor, como professa a sua Fé e como se compromete a transformar a sua vida à luz dos ensinamentos de Jesus.

Domingo XXI do Tempo Comum

Chamados a escolher…

Na nossa cultura, o sucesso apoia-se muitas vezes num jogo de números. Um programa de televisão de sucesso é aquele que tem uma audiência muito elevada. Se o número de espetadores diminuir, o programa está com problemas. Se algum evento organizado atrair apenas um pequeno grupo, será considerado um fracasso. Os famosos e influencers andam à volta do número de seguidores. Também a democracia é baseada no voto da maioria e todos os partidos desejam ter mais no dia das eleições. Tudo anda à volta de números.

O evangelho, porém, sugere que Jesus não se preocupou muito com os números. Os evangelhos dos últimos domingos (excetuando o domingo passado em que celebramos Maria na sua Assunção) foram tirados do capítulo 6 de João, onde Jesus fala de si mesmo como o Pão da Vida e da necessidade de comer a sua carne e beber o seu sangue para ter a vida. Logo após o sinal dos pães multiplicados, Jesus apresenta-Se como o verdadeiro Pão Vivo, aquele que desce do céu para garantir a Vida Plena.
No texto de hoje, alguns dos próprios discípulos de Jesus expressam o seu desconforto com essa linguagem. ‘Estas palavras são insuportáveis, quem as pode escutar’? Jesus sabe perfeitamente que alguns dos seus seguidores se afastam. Mesmo assim não faz nenhum esforço para suavizar as suas palavras, a fim de manter uma grande multidão. Ele não se preocupa com os números. Em vez disso, insiste que as suas palavras são espírito e vida. Como resultado, o evangelista diz-nos que "muitos dos seus discípulos se afastaram e já não andavam com ele", e de repente perdeu uma faixa inteira de seguidores. De acordo com o evangelho, Jesus até se voltou para os Doze, o seu grupo principal, e os interpelou: “também vos quereis ir embora?” Ele estava preparado para sofrer uma debandada daquele grupo principal, mas não para suavizar os seus ensinamentos. Cabia então aos discípulos decidirem se iam ou ficavam. Pedro percebeu que também não tinha entendido muitas coisas. Mas compreendeu que não havia outro Caminho! E que nenhuma outra Palavra lhe podia comunicar a Vida, e aproveitou o momento para declarar a sua fidelidade a Jesus: “Senhor, para quem iremos, Tu tens palavras de vida eterna”!
Ainda hoje o Senhor nos interpela a fazer opções, a escolher. Na verdade, a escolha é uma das ações mais importantes na vida humana, decorre da liberdade com que fomos dotados. Se olharmos para a 1ª leitura, vemos como o Povo de Deus é também chamado a escolher. Josué questiona o povo se, de facto, deseja servir ao Senhor ou seguir outros deuses. Ele mesmo assume publicamente o compromisso com o Senhor, quando afirma que ele e toda a sua casa serviriam ao Senhor: "Eu e minha família serviremos ao Senhor". Diante do compromisso de Josué, o povo recorda as maravilhas realizadas pelo seu Deus, reconhecendo que deveria assumir o mesmo caminho: "Nós também serviremos ao Senhor". A assembleia reunida de Siquém torna-se um sinal para todos os que desejam seguir e servir ao Senhor nas suas vidas, como verdadeiros discípulos.
Tal como Josué e o povo que o acompanhava, tal como Pedro e os demais discípulos, também nós sabemos, por experiência, que ser fiel nem sempre é fácil. As suas palavras sempre nos desafiarão em algum momento do nosso caminho.

É de um desses desafios que S. Paulo fala à comunidade de Éfeso. O desafio de viver na família um amor maior, como sinal do amor do Pai, que nos foi comunicado por Jesus. Ao refletir sobre as palavras de Paulo, não podemos deixar de ter em conta o contexto social e cultural da época. Claramente, no contexto atual não usamos o termo submissão para falar de uma relação de amor entre iguais, mulher e homem. E, infelizmente, é ainda necessário afirmar essa igualdade, também no que respeita às relações familiares. No casamento cristão, os esposos escolhem-se um ao outro para um amor e fidelidade ao longo da vida e entregam-se um ao outro, numa opção radical, como Cristo se entregou à Igreja.

Para a Igreja, a família cristã não é uma mera instituição humana, mas também divina, um sacramento, é a Igreja doméstica. “Sede solícitos uns para com os outros”, dizia S. Paulo. Assim, marido e esposa devem amar-se como Cristo amou a Igreja, cada um procurando ser feliz no amor do outro, partilhando as alegrias e tristezas, as lutas e dificuldades. Certamente que a vida em família nem sempre é fácil. É necessário cada dia recuperar as três palavras simples propostas pelo Papa: “por favor”, “desculpa” e “obrigado”. E cultivar a oração, a partilha, para que juntos possam vencer as dificuldades!
Também esta realidade, da vivência familiar, é iluminada pelas palavras de vida eterna que Jesus tem para nos oferecer.

Continuemos, pois, a renovar a nossa resposta à pergunta lançada por Jesus, fazendo nossas as palavras de Pedro no evangelho de hoje, “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna!” Na Eucaristia comprometemo-nos a comungá-Lo como alimento para as nossas vidas. O pão da Eucaristia nos fortalece e nos conforta. Não podemos prescindir de Jesus, para experimentar a sua proximidade e amor todos os dias. Sabemos que nunca estamos sozinhos. Ele cumpre a sua promessa e acompanha-nos até à meta final.

Que a celebração deste Domingo nos ajude a questionar a forma como cada um acolhe o chamamento do Senhor, como professa a sua Fé e como se compromete a transformar a sua vida à luz dos ensinamentos de Jesus.

Pe. Álvaro Cunha, CM