Lições bíblicas

A Palavra de Deus é viva e actuante, é o próprio Cristo que inquieta, que leva a desinstalarmo-nos e, no seu amor, a procurá-lo, tal como o homem do Evangelho que com o coração inquieto se dirige a Jesus e o interpela sobre a forma como deve viver a sua vida para poder estar em plena comunhão com Deus

Domingo XVIII do Tempo Comum

“A Palavra de Deus é viva e eficaz” – é desta forma que inicia a 2ª leitura – reforçando o valor da palavra; como a palavra de Deus desperta na consciência de cada pessoa as motivações mais profundas para uma vida inteiramente enraizada no Espírito de Deus, no amor compassivo de Deus Pai. Não é uma palavra morta, uma palavra que passa de moda, mas é uma palavra que gera inquietação no íntimo. A Palavra de Deus é viva e actuante, é o próprio Cristo que inquieta, que leva a desinstalarmo-nos e, no seu amor, a procurá-lo, tal como o homem do Evangelho que com o coração inquieto se dirige a Jesus e o interpela sobre a forma como deve viver a sua vida para poder estar em plena comunhão com Deus. A tudo aquilo que aquele homem vive, Jesus olha-o com simpatia e pede-lhe mais, pede-lhe que amadureça espiritualmente, que “cresça no amor fraterno, generoso, misericordioso. Oxalá vivas cada vez mais esse êxtase que é sair de ti mesmo para procurar o bem dos outros, até dar a vida” (ChrV 163). Acrescenta o Papa Francisco que, “quando um encontro com Deus se chama «êxtase» é porque nos arranca de nós mesmos e nos eleva, cativados pelo amor e a beleza de Deus. Mas, também podemos ser arrancados de nós mesmos para reconhecer a beleza oculta em cada ser humano, a sua dignidade, a sua grandeza como imagem de Deus e filho do Pai. O Espírito Santo quer impelir-nos para que nós saíamos de nós mesmos, abracemos os outros com amor e procuremos o seu bem” (ChrV 164).

De interpelado, Jesus, passa a interpelante e convida aquele jovem que conhece os mandamentos e os cumpre, que conhece a lei, e que dessa forma ama a Deus, a fazer mais; desafia-o a tornar efectivo o amor que tem a Deus no amor vivido com os irmãos. Cristo desafia-o a libertar-se das amarras terrenas, os bens, o ouro, a prata, o egoísmo, o individualismo, o “seu eu”, para poder abraçar os bens eternos, para ter um tesouro no céu, vivendo a caridade, estando ao serviço dos pobres, doando a sua própria vida ao serviço de Deus.

Quais são as amarras que nos prendem e não nos deixam dar o nosso sim ao chamamento que Deus nos faz para o seguirmos?

Estamos cheios de nós próprios, dos nossos pequenos prazeres, das pequenas alegrias que não somos capazes de abrir o nosso coração à verdadeira felicidade e à alegria de seguir a Cristo. Pois, “o amor de Deus e a nossa relação com Cristo vivo não nos privam de sonhar, não nos exigem que reduzamos os nossos horizontes. Pelo contrário, esse amor promove-nos, estimula-nos, lança-nos para uma vida melhor e mais bela. A palavra «inquietação» resume muitas das buscas do coração dos jovens. A inquietação insatisfeita, juntamente com o assombro pelo novo que se delineia no horizonte abre passagem à ousadia que os impele a assumirem-se a si mesmos, a tornarem-se responsáveis por uma missão. Esta sã inquietação, que desperta de modo especial na juventude continua a ser a caraterística de qualquer coração que se mantém jovem, disponível, aberto. A verdadeira paz interior convive com esta profunda insatisfação” (ChrV 138).

Aquele jovem não estava preparado – coração jovem, disponível, aberto – para dar o passo seguinte, não tinha a verdadeira paz interior para escutar o apelo de Jesus, “vem e segue-me”, por mais que Jesus o tenha convidado; mas anuviou-se-lhe o semblante porque Jesus o interpelou directamente, o fez olhar para o seu íntimo e, aí encontrou todas as prisões e não se deu conta que mais que cumprir os mandamentos é importante abraçar o projecto que Deus tem para nós. Mais do que cumprir os mandamentos é importante viver a caridade, doar-se a si próprio, dar o SIM radical a viver do amor de Cristo a viver a Deus.

Jesus quer-nos livres, quer que tenhamos um coração disponível, lança-nos para uma vida melhor e mais bela, mas, mais uma vez não deixamos que o seu amor frutifique no nosso coração. Assim, fechámo-nos à missão a que Deus nos chama e não nos damos conta que o amor de Deus e a nossa relação com Cristo vivo não nos privam de sonhar.

Em jeito de conclusão temos a primeira leitura do livro da Sabedoria que concluiu que a verdadeira riqueza é a sabedoria que nos vem da palavra de Deus. Ela é luz, o seu brilho jamais se extingue no coração que a ama, a acolhe e a torna eficaz na sua vida.
“Desde que um coração esteja vazio de si mesmo, Deus o preencherá” (SVP)

Pe. Gonçalo Fernandes, CM