Lições bíblicas

Penso, particularmente, neste tema do Pão da Vida, à luz de tudo o que representa o mês de agosto (descanso, tempo livre, refeições mais prolongadas) e em toda a situação pandémica que insiste em não passar.

Domingo XIX do Tempo Comum

A Palavra de Deus que somos chamados a meditar neste Domingo XIX do Tempo Comum continua a centrar-nos no capítulo VI do Evangelho de S. João. Aliás, este é o terceiro dos quatro domingos em que lemos este capítulo que apresenta Jesus como o Pão da Vida.

Para nos ajudar nesta meditação, recordamos as leituras que precedem o Evangelho deste Domingo:
Na primeira leitura somos colocados diante do episódio do profeta Elias que, cansado de um dia a caminhar no deserto, deseja a morte, pois já não se sente com forças. Foi neste descanso de quem se sente sem esperança, que lhe aparece um anjo, o convida a levantar-se e a comer do pão e da água que estava junto dele. Fortalecido com aquele alimento, diz-nos o texto, o profeta caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até ao monte de Deus (1Re 19, 4-8).

Na segunda leitura é S. Paulo que exorta à comunidade de Éfeso para que não entristeça o Espírito Santo. Para isso, afirma o Apóstolo, devem-se afastar de tudo o que é insulto, azedume, cólera, maledicência e todo o tipo de maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoem-se mutuamente e imitem a Cristo, como filhos amados de Deus que somos, e que caminhem na caridade, a exemplo de Cristo, que nos amou e se entregou por nós (Ef 4, 30-5, 2).

Duas leituras, dois temas (cansaço do caminho e fragilidade das relações) que nos permitem “participar” neste desencontro de Jesus com os judeus que a passagem do Evangelho de hoje nos apresenta (Jo 6, 41-51). De um lado, os judeus que olham para Jesus a partir da sua humanidade (filho de José) e questionam como é que Ele se apresenta como aquele «que desceu do Céu»; e do outro lado, Jesus que se revela como o pão da vida que desceu do Céu, alimento de vida eterna. E este pão é a sua carne que dará pela vida do mundo. Percebemos que está em causa a ausência de fé em Jesus, o Filho de Deus, que nos oferece o caminho da vida e do amor. Porquê? Bento XVI no número 13 da Encíclica Deus Caritas Est, ajuda-nos a encontrar a resposta: se o mundo antigo sonhava que o verdadeiro alimento do homem era o Logos (sabedoria eterna), este Logos apresenta-se como alimento para nós, como amor. Ou seja, a proposta de Jesus não é que O recebamos de forma estática, mas que nos envolvamos na sua dinâmica de doação, permanecendo, assim, unidos a Ele. É a «mística do sacramento» com que Jesus institui a Eucaristia e com a qual nos torna participantes neste Amor. E este Amor só pode crescer através do amor… por isso, nos transforma num Nós, numa experiência de comunhão com todos aqueles por quem Jesus deu a vida.

Penso, particularmente, neste tema do Pão da Vida, à luz de tudo o que representa o mês de agosto (descanso, tempo livre, refeições mais prolongadas) e em toda a situação pandémica que insiste em não passar. Podemos aproveitar a mesa e o descanso até nos cansarmos, assim como todos os cansaços das limitações da covid-19 para nos resignarmos ou, pelo contrário, experimentar que a vida não é uma busca de si próprio, mas uma ação de graças de quem se sente criado à imagem de Deus e n’Ele se alimenta para ultrapassar os cansaços do deserto e as fragilidades que impedem a comunhão. Concretamente, sou chamado a descobrir que pela Eucaristia, Corpo de Cristo, cada um que dela participa se torna alimento de vida quando acolhe, experimenta o perdão, a escuta, a partilha, a oração, a paz e a comunhão… faz da vida, dom.

Peço-te, Senhor, o teu Espírito para compreender as tuas palavras e encontrar na Eucaristia o alimento para os cansaços da vida que impedem, inclusive, o reconhecimento do teu Amor na vida dos meus irmãos.

Pe. Pedro Guimarães, CM