Lições bíblicas

Esta festa é uma bela oportunidade para refletir sobre o significado do nosso próprio batismo e para renovar os compromissos que nele assumimos, bem como para dar graças a Deus pelo grande dom de sermos seus filhos.

Domingo do Batismo do Senhor

Com a festa do Batismo do Senhor encerramos liturgicamente o ciclo do Natal e iniciamos o Tempo Comum que se prolongará até quarta-feira de cinzas, na sua primeira fase. No Natal e na Epifania celebramos o acontecimento mais decisivo da história da salvação: Deus assume a nossa humanidade para nos comunicar a sua divindade por meio de seu Filho Jesus Cristo. Desde o início, S. Marcos apresenta-nos a finalidade do seu “Evangelho”: dar a conhecer que Jesus é o Filho de Deus. E o Espírito Santo é o protagonista da vida de Jesus.

O batismo de Jesus nas margens do Jordão não só representa o início da sua aparição em público, quebrando o silêncio da vida passada em Nazaré, mas também constitui uma verdadeira revelação do seu mistério e da sua missão que consistirá em tornar presente a misericórdia salvadora de Deus, cumprindo as profecias, como escutávamos na 1ª leitura. Aqui o profeta Isaías escreve para confortar o povo de Israel que perdeu a sua terra, o seu rei e o seu templo. Nesta mensagem de consolação se insere este primeiro cântico do servo de Javé. Aqui, este identifica-se com um rei pagão, Ciro, que vai permitir o regresso do povo de Israel à sua terra. Mais tarde, este vai torna-se um texto messiânico que identificará claramente Jesus como o servo de Javé anunciado pelo profeta. Jesus é o Servo, eleito, escolhido, no qual o Pai pôs toda a Sua alegria, e que possui a plenitude do Espírito Santo. Nele se cumpriu esta profecia de Isaías.
Convém lembrar que o batismo de João não é o mesmo Batismo-Sacramento que foi instituído por Jesus e que nos faz cristãos. Trata-se do batismo de penitência, com que João preparava o povo para a chegada do Messias. Por isso, à primeira vista, podemos achar desconcertante que Jesus, o Filho de Deus, que o próprio João tinha anunciado como "mais forte" do que ele, diante do qual não se sentia digno de desamarrar a correia das sandálias”, se coloque na fila como aqueles que, reconhecem a necessidade de se converter.

Uma das grandes diferenças de Jesus em relação ao restante das pessoas que compareciam a esse batismo no Jordão é a ausência de pecado. Podemos dizer que Jesus carregou as nossas culpas, cumprindo a profecia do Servo de Javé e tornando-se solidário com o seu povo pecador.
No episódio do batismo, Jesus aparece como o Filho amado, que o Pai enviou ao encontro dos homens para os libertar e para os inserir numa dinâmica de comunhão e de vida nova. Nessa cena revela-se, portanto, a preocupação de Deus e o imenso amor que Ele nos dedica. No batismo, Jesus tomou consciência da sua missão, recebeu o Espírito e foi enviado a testemunhar o projeto libertador do Pai.

Na 2ª leitura, do livro dos Atos dos Apóstolos, encontramos Pedro a proclamar a boa nova da salvação, afirmando que a história atingiu a sua plenitude. E esta proposta de salvação oferecida por Deus e trazida por Cristo é universal e destina-se a todas as pessoas. E indica o batismo como o início do ministério de Jesus, sintetizando toda a sua atividade: "ele que passou fazendo o bem" e é "o Ungido por Deus com a força do Espírito".

Não há dúvida de que a Igreja, ao celebrar esta festa, não quer apenas adorar a Deus pela grandeza e santidade dos seus mistérios, mas quer chamar a atenção para a realidade, tantas vezes esquecida, do nosso batismo. Esta festa é uma bela oportunidade para refletir sobre o significado do nosso próprio batismo e para renovar os compromissos que nele assumimos, bem como para dar graças a Deus pelo grande dom de sermos seus filhos.

Para Jesus, o batismo significou o início da sua vida pública como Messias. Para nós, é a porta de entrada na Igreja e é o início da nossa caminhada de fé, de chamamento à santidade. Precisamos, por isso de aprender o que significa ser batizado, ser Igreja. Precisamos de saber dar razões da nossa fé, da nossa esperança e da nossa caridade, e afirmar que tudo isto nos vem do facto de sermos batizados, de sermos ungidos e enviados. Por isso, este domingo é um dia para revermos a nossa vida de batizados, à luz do batismo de Jesus.

O sermos batizados deve levar-nos a fazermos a experiência do encontro com o Senhor e a sermos verdadeiros discípulos missionários. Pelo batismo fomos chamados a uma missão: sermos sinais de Deus na nossa história, a fazer com que as pessoas se possam encontrar e relacionar com Deus. Diz o Papa na Evangelii Gaudium:“Em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário. Cada um dos batizados, a pesar da própria função na Igreja e do seu grau de instrução, é um sujeito ativo de evangelização. Por isso, a nova evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos batizados” (EG 120). Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus. Ora, no dia do nosso batismo, comprometemo-nos com esse projeto…
Eu, que no batismo aderi a Jesus e recebi o Espírito que me capacitou para a missão, tenho sido uma testemunha séria e comprometida?

Tenho renovado diariamente o meu compromisso e percorrido, com coerência, esse caminho que Jesus me veio propor?

Que esta Eucaristia nos anime no testemunho da fé que somos chamados a dar.

Pe. Álvaro Cunha, CM