Lições bíblicas

No relato da paixão em São Marcos, admiramos um Jesus que permanece em silêncio, abandonado por todos, em estreita união ao Pai a quem chama “abbá”, (que em aramaico, quer dizer papá ou paizinho) e que leva a uma impressionante proclamação de fé por parte de um pagão, o centurião romano: “Verdadeiramente este homem é o Filho de Deus”.

Domingo de Ramos

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A celebração do Domingo de Ramos reporta-nos a Jerusalém, num longínquo dia antes da primeira Lua Cheia da Primavera, desse ano 33 da vida de Jesus Cristo. Façamos um pequeno exercício de nos misturarmos com a multidão que nessa manhã encheu de exclamações de alegria as ruas de Jerusalém. No princípio, o grupo era pequeno e começa a formar-se no contíguo Monte das Oliveiras, fronteiro ao Monte Sião onde estava construído o imponente Templo herodiano de Jerusalém. Jesus dá instruções a dois dos seus discípulos para irem à povoação em frente – Betfagé – e lhe tragam um jumentinho preso. Eles assim fizeram, lançaram as suas capas por cima e Jesus montou nele. Depois “muitos estenderam as suas capas no caminho e outros ramos de verdura, que tinham cortado nos campos. E tanto os que iam à frente, como os que vinham atrás, clamavam: «Hossana! Bendito O que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai David! Hossana nas alturas!»” (Mc 11,7-11). E assim, exuberante, exultante, a multidão foi-se aglomerando, juntando e acompanhando o Senhor que entrava na Cidade Santa como um Rei, o esperado Messias. É uma entrada triunfal, imparável e contagiante.

Mas, este, é também o Domingo da Paixão, porque desde o ano 440 – desde o tempo do Papa São Leão Magno – se lê no Evangelho, a Paixão de Jesus; o Domingo de Ramos une num todo o triunfo real de Cristo e o anúncio da paixão.

Bento XVI explica o seu livro “Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição” que Jesus Cristo reivindicou o direito régio, conhecido em toda a antiguidade, da requisição de meios de transporte particulares. O uso de um animal (o burro) sobre o qual ninguém havia montado é mais um indicador do direito régio. Jesus queria que o seu caminho e as suas acções fossem compreendidos com base nas promessas do Antigo Testamento (Zac 9,9) que nele se tornaram realidade; Jesus não Se apoia na violência, não começa uma insurreição militar contra Roma. “O seu poder é de caráter diferente; é na pobreza de Deus, na paz de Deus que Ele individualiza o único poder salvador”, detalha o livro. Os acompanhantes de Jesus gritam palavras do Salmo 118 e nos seus lábios tornam-se uma proclamação messiânica. Esta multidão que aplaudiu a chegada de Jesus não é a mesma que exigiu sua crucificação, conforme escreve Bento XVI no livro acima citado: os três Evangelhos sinópticos, bem como o de São João, mostram claramente que aqueles que aplaudiram Jesus na sua entrada em Jerusalém não eram os seus habitantes, mas as multidões que acompanhavam Jesus e entraram na Cidade Santa com ele. Este ponto é bem mais claro no relato de Mateus: “E entrando em Jerusalém, a cidade inteira agitou-se e dizia: ‘Quem é este?’. A isso, as multidões respondiam: ‘Este é o profeta Jesus, o de Nazaré de Galileia’” (Mt 21, 10-11). Portanto, as multidões que o aclamaram não foram as mesmas que gritaram diante de Pilatos, uns dias depois, que soltassem Barrabás e dessem a morte a Jesus; é bom que se tenha isso em conta.

Na liturgia deste Domingo sobressai realmente pela sua extensão, a leitura da Paixão de Jesus (no ano B), segundo São Marcos. Nas duas Leituras e no Salmo Responsorial, que se lêem todos os anos, surge a figura do “Servo de Deus”. Na segunda leitura, este Servo apresentado por Isaías “para levar palavras de alento aos que andam abatidos”, tem um rosto e um nome: Jesus Cristo. As primeiras palavras do Salmo 21 – refrão –, são das últimas palavras de Cristo na Cruz: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”, significam lamentação e confiança.

No relato da paixão em São Marcos, admiramos um Jesus que permanece em silêncio, abandonado por todos, em estreita união ao Pai a quem chama “abbá”, (que em aramaico, quer dizer papá ou paizinho) e que leva a uma impressionante proclamação de fé por parte de um pagão, o centurião romano: “Verdadeiramente este homem é o Filho de Deus”. São Marcos inicia o seu Evangelho com esta afirmação e apesar de sempre silenciada ao longo do texto (“Jesus não queria que ninguém o soubesse”) é com ela que conclui; eis o processo ou itinerário da fé: o crente deve ir caminhando e descobrindo, por si próprio que Jesus é o Filho de Deus.

Há duas particularidades únicas neste Evangelho que não existem nos textos dos outros evangelistas:
+ o termo “Abbá” colocado na boca de Jesus precisamente no momento mais dramático da sua vida, e que revela uma suprema entrega e confiança nas mãos do Pai;
+ e o episódio do jovem envolto apenas num lençol, que ao tentarem prender fugiu completamente nu (Mc 14,51-52). Muito provavelmente teria sido o próprio Marcos. Recorda-nos que o discípulo tem que abandonar tudo, deitar a capa fora como o cego de Jericó e seguir o Mestre; no entanto, por vezes, até o discípulo generoso abandona e foge. De facto, ser capaz da doação da vida exige ao discípulo um longo caminho iluminado pela Páscoa de Cristo.

Como conclusão, apraz-me escrever o seguinte: se nós quisemos integrar o grupo dos que levaram ramos e aclamaram Jesus, se ao longo da nossa vida, muitas vezes o abandonámos, com medo, consciente ou inconscientemente, se de longe assistimos à cena da crucifixão e morte de Jesus, façamos do acto de fé do centurião, “verdadeiramente este é o Filho de Deus”, o nosso propósito de vida de seguir Jesus – a exemplo dos apóstolos e dos discípulos que deixaram tudo para viver e morrer por Ele e pela causa do Reino de Deus, da salvação do mundo.

Pe. Manuel Martins, CM