Lições bíblicas

XXXIII Domingo do Tempo Comum

A Igreja aproxima-se do final do Ano Litúrgico e, por isso, a Palavra de Deus de cada Domingo nos convidar a meditar "nas últimas coisas" da vida. Um tema que Jesus, no Evangelho deste Domingo, nos propõe através da parábola dos talentos. Para nos ajudar a aprofundar esta mensagem, contamos com a reflexão do Pe. Álvaro Cunha.

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A palavra de Deus deste domingo leva-nos a fazer uma reflexão acerca do modo como tornamos efetiva e afetiva a nossa fé. No evangelho encontramos uma das parábolas mais conhecidas, a dos talentos. Apresenta “um homem que, ao partir para uma viagem, chamou os seus servos e lhes confiou os seus bens". Na parábola encontramos 3 homens que receberam vários talentos. O primeiro, recebeu 5, o segundo recebeu 2 e ambos procuraram pô-los a render e foram elogiados e recompensados aquando do regresso do seu senhor. O terceiro recebeu 1, mas simplesmente o vai esconder, nada fazendo para o valorizar.

A parábola apresenta como modelo os dois servos que cuidaram dos "bens", que se preocuparam em não deixar esquecidos os dons do "senhor", que fizeram investimentos, que não se acomodaram nem se deixaram paralisar pela preguiça, pela rotina, ou pelo medo. Por outro lado, a parábola condena o servo que entregou intactos os bens que recebeu. Teve medo e, por isso, não correu riscos. Mas não só não tirou desses bens qualquer fruto, como também impediu que os bens do "senhor" se valorizassem. Não depende de nós o que recebemos (os talentos), mas depende de nós o que fazemos com eles. Assim, esta parábola desafia-nos a arriscar, a fazer render a nossa vida, a valorizar os dons recebidos. Pois o medo é o pior inimigo para a vivência da fé. Nesta perspetiva os "bens" que Jesus deixou aos seus discípulos têm de dar frutos.

Mas não nos podemos contentar com os “mínimos”, mais ainda na prática da caridade. E celebramos hoje o Dia Mundial dos pobres. O Papa Francisco instituiu este dia no final do Ano da Misericórdia, em novembro de 2016, para recordar a situação de pobreza no mundo e interpelar para a necessidade de cuidar das pessoas mais vulneráveis. Na sua mensagem deste ano convida a humanidade a “estender a mão ao pobre” como sinal de solidariedade e amor. Sabemos que a pobreza assume sempre rostos diferentes, em tantos contextos…e como diz o Papa: “é verdade que a Igreja não tem soluções globais a propor, mas oferece, com a graça de Cristo, o seu testemunho e gestos de partilha”. O Papa recorda que o culto prestado a Deus não deve estar desvinculado do amor concreto ao próximo. Sem a caridade, a nossa vida cristã está incompleta e o nosso culto não seria agradável a Deus. Por isso, existem na Igreja várias instituições voltadas para a caridade, com tantas iniciativas que agregam pessoas em ordem à prática da caridade, recordo apenas a Caritas, a Sociedade de São Vicente de Paulo, presente na nossa Paróquia. Como dizia o Papa Bento XVI na Encíclica Caritas in veritate, “a caridade está no coração da Igreja, ela é a razão da sua ação, a alma de sua missão”. O Dia Mundial dos Pobres convida a refletir sobre a situação da exclusão e miséria, espiritual e material, em que estamos inseridos. Como escreve na mensagem, e todos nós conhecemos a realidade: “este período que estamos a viver colocou em crise muitas certezas. Sentimo-nos mais pobres e mais vulneráveis, porque experimentamos a sensação do pouco que podemos fazer”. Mas quantas mãos se lançam ao encontro dos outros neste tempo de pandemia! Mas o encontro com uma pessoa em condições de pobreza não cessa de nos provocar e questionar. Como podemos contribuir para eliminar ou pelo menos aliviar a sua marginalização e o seu sofrimento? Mas também como podemos aprender com eles a iniciar um projeto de mudança?

Neste contexto temos como modelo São Vicente de Paulo, patrono das associações católicas de caridade que compreendeu que os Pobres são “os nossos senhores e mestres”. A eles vai dedicar toda a sua vida, tentando envolver o maior número possível de pessoas e instituições, pois como ele dizia: “o amor é inventivo até ao infinito”. Também nós hoje devemos ser criativos na forma de estender a mão ao pobre, também nós devemos colocar ao serviço dos outros os nossos talentos.
Que o Senhor nos ajude nesta missão.

Pe. Álvaro Cunha, CM