Lições bíblicas

XXVIII Domingo do Tempo Comum

Perante o projeto de Jesus surgem duas atitudes que contrastam uma com a outra: a do samaritano frente aos restantes leprosos judeus; e a de quem acolhe de forma recetiva e aberta a salvação frente a quem só se interessa pela cura física. Será sempre a nossa resposta pessoal a ditar de que lado estamos e qual a nossa atitude.

XXVIII Domingo do Tempo Comum

A Liturgia da Palavra aborda, hoje, a temática de uma doença que era vista, pelo povo, como castigo de Deus: a lepra. Se a primeira leitura fala de um leproso, no evangelho encontramos dez. No caminho de Jesus para Jerusalém, esses dez, depois de pedirem a Jesus que tivesse compaixão deles, são curados. Mas só um, o samaritano (o estrangeiro), regressa para agradecer e dar glória a Deus. Onde estão “os de casa”, os que dizem que acreditam, ou que julgam ter maior sentido de pertença?

Imaginemos o samaritano a correr, glorificando a Deus em voz alta; e foi prostrar-se aos pés do Mestre, dando-lhe graças. Foi uma ação profundamente humana e cheia de beleza. A gratidão é, de facto, uma das virtudes que enobrecem a pessoa humana. Desde criança, fomos educados a agradecer os favores recebidos. A gratidão é uma atitude que brota do coração de quem se sente amado Deus.

A ingratidão nasce de uma visão negativa do ser humano. Há pessoas que sempre desconfiam e desconfiarão das verdadeiras intenções de quem fez ou faz o bem. Essa perspetiva limita a nossa capacidade para agradecer, fomenta o individualismo e a autossuficiência. Há outros que não se consideram dignos de receber os dons e, por isso, torna-se impossível reconhecer os dons gratuitos recebidos. Não se reconhecem dignos de ser amados. O sentimento de culpa não deixa espaço ao perdão e ao amor.

«Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou».
A força deste episódio do evangelho não recai tanto sobre o ato em si, mas sobre a leitura que Jesus faz dele. Estamos mais próximos de um relato de conversão do que a simples constatação de uma cura. Ou seja, os milagres não são, por si só, a garantia de conversão. A fé assenta na Palavra, no sentido que Jesus dá a estes sinais de salvação. No vocabulário de São Lucas, a fé acompanha sempre toda a experiência de salvação. Lembremos os episódios da pecadora arrependida (7, 50), da mulher que sofria de hemorragias (8, 48) ou do cego de Jericó (18, 42). É, de facto, uma fé que move montanhas.

Por isso, perante o projeto de Jesus surgem duas atitudes que contrastam uma com a outra: a do samaritano frente aos restantes leprosos judeus; e a de quem acolhe de forma recetiva e aberta a salvação frente a quem só se interessa pela cura física. Será sempre a nossa resposta pessoal a ditar de que lado estamos e qual a nossa atitude.

Talvez a grande “lepra” dos dias de hoje seja o esquecimento de Deus, ou seja, acreditar que podemos tudo. “Onde estão os outros?” É uma pergunta à qual não podemos fugir. As palavras de Jesus, no evangelho, fazem-nos pensar na importância que têm os números: “não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove?”

Esta pergunta – “onde estão os outros?” – fazemo-la nós e muitos dos que passam pelas nossas igrejas e notam as assembleias cada vez mais reduzidas a celebrar o Dia do Senhor em comunidade. Onde estão…?

Pe. Carlos César, CM