Lições bíblicas

XII Domingo do Tempo Comum

A liturgia apresenta-nos a fé em Jesus, e consequente seguimento, como capaz de realizar a reconstrução do homem interior, destruído pelo egoísmo, até atingir a plenitude da vida.

XII Domingo do Tempo Comum

Estamos a celebrar o XII domingo do tempo comum do ano C. A liturgia apresenta-nos a fé em Jesus, e consequente seguimento, como capaz de realizar a reconstrução do homem interior, destruído pelo egoísmo, até atingir a plenitude da vida.

1. Imaginemo-nos membros de uma dessas pequenas comunidades cristãs da primeira geração a ler a 1ª leitura, de Zacarias: - naturalmente encontraríamos neste texto, como aliás eles encontraram, o anúncio profético de tudo o que recentemente tinha acontecido a Jesus, e ainda tão fresco na sua memória. Ele é mesmo o Messias anunciado pelos profetas, no modo como é anunciado por Isaías e retomado por Zacarias: não será o Messias guerreiro, de elite, mas do povo, personificando e assumindo em si, toda a condição humana sofredora e solidária. Combaterá o egoísmo pelo serviço, a arrogância pela humildade, o desejo de ter e possuir pela pobreza, o formalismo religioso pela adoração do Pai em espírito e verdade, o ritual vazio pelo coração que ama e louva.
Tudo isto é possível porque deste personagem de Zacarias, humilhado e maltratado, figura de Jesus em quem essa humilhação é levada ao extremo impensável, jorrará água criadora. Imagem repetida, muito ao gosto de S. João, pois de Jesus na Cruz faz jorrar do seu lado aberto sangue e água: a graça redentora que se comunica através dos Sacramentos, particularmente do Batismo e da Eucaristia.
No livro do Apocalipse, já na sua parte final, escrevendo à Igreja, no seu percurso histórico, carregado de limitações e vicissitudes, o autor retoma a ideia da graça redentora que jorra do mistério da morte de Jesus, não já simbolizada na Cruz, mas no trono de Deus e do Cordeiro debaixo do qual jorra um rio (a graça redentora) que alimenta(crescia) a árvore da vida.

2. A 2ª leitura fala-nos dos efeitos produzidos em todos aqueles que se deixam envolver por esta força redentora que vem do mistério da morte e ressurreição do Senhor. E o primeiro grande resultado é a realização e proclamação inequívoca da absoluta igualdade, em dignidade, de todos aqueles que se revestem de Jesus Cristo independentemente da raça, do género, da pertença social ou da situação económica. Revestir-se de Jesus Cristo, em Paulo, não é uma superestrutura, uma capa. É algo muito mais profundo. É pensar como Jesus Cristo; é ver como Jesus Cristo; é atuar como Jesus Cristo; é viver como Jesus Cristo. O pensador cristão do sec.III, Tertuliano, dizia com toda a clareza: “o cristão é outro Cristo”.
Assim como em Abraão o que o justificou e o tornou pai de um povo numeroso foi a sua fé, também a nós o que nos leva a dizer que somos da sua descendência é a nossa fé.

3. Isto exige uma escolha difícil apresentada por Jesus na 3ª leitura:
• Ser discípulo, aprender com o mestre, fazer caminho com Ele: “tomar a cruz todos dias, e fazer contas que estão fora da nossa lógica aritmética: perder para ganhar, morrer para viver, perder para encontrar”;
• Ser capaz de vislumbrar algo desconhecido, e por isso, ter coragem de dizer aquilo que a fé nos inspira: “Tu és o Messias de Deus”. Pelo caminho da fé, é preciso ir mais fundo e mais longe; não ser simples repetidor de frase feitas, de conceitos antigos: ”Uns dizem que….outros dizem….”.
Mas o importante para Jesus é saber o que é que Ele significa para os discípulos… para mim, para ti… Para os discípulos de ontem e para os discípulos de hoje…Ele é, e será sempre, o Messias de Deus, o Filho enviado pelo Pai para testemunhar, através da sua incarnação (da sua corporeidade) toda a força do Amor que nos dedica. E acontece o que humanamente é um salto no desconhecido, só explicável pela fé: “meu Senhor e meu Deus….”de Tomé, de Paulo, de Francisco de Assis, de Inácio de Loiola, de Vicente de Paulo…..
S. Paulo, preso e já no fim da sua vida, em jeito de avaliação sobre o que foi para ele converter-se a Jesus Cristo, deixa-nos profundamente estupefactos ao dizer: “Todas essas coisas que eu julgava proveitosas, considero-as agora como prejudiciais para a causa de Cristo. Na verdade considero tudo como um prejuízo, em comparação com o maravilhoso conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por causa dele desprezei tudo…”

4. A nós cristãos de hoje falta a frescura do Evangelho que entusiasmou Pedro, levou Paulo a rever todo o seu projeto de vida, determinou os mártires ao martírio e fez com que tantos homens e mulheres vivessem na fidelidade a Jesus nos vários estratos sociais e nas diversas épocas da história, nas múltiplas línguas culturas. Gente tão diversa e alimentar a sua vida da fonte de água que jorra do mistério da Páscoa de Jesus. Quer se exprima na simbologia da Cruz quer na simbologia do Cordeiro que têm de comum fazer jorra água, o espírito, a graça vai fazendo novas todas as coisas.

Pe. José Alves, CM