Lições bíblicas

VIII Domingo do Tempo Comum

Como nos recorda o Evangelho de hoje, “a boca fala da abundância do coração”. E isto não é sentimentalismo, pois para a cultura judaica da época, o coração não é o lugar do mero sentimento, mas o lugar da consciência, da decisão, da reflexão.

VIII Domingo do Tempo Comum

Se quisermos ir ao núcleo da questão, podemos dizer que o centro da mensagem da Palavra de Deus deste domingo é o seguinte: temos de cultivar o tesouro do nosso coração. Efetivamente, as palavras de Jesus contidas no Evangelho de hoje têm por objetivo levar-nos à decisão de trabalhar o nosso coração, a interioridade profunda de cada um de nós para que vivamos dando frutos saborosos. É necessário cultivar o nosso interior, o centro dos nossos desejos, projetos, amores, ódios, para que tudo se vá tornando um tesouro de bondade que nos faça viver segundo o Evangelho. Que nos permita ver cada pessoa e o mundo com os mesmos olhos de Jesus e converter-nos em autênticos discípulos do Mestre.
O bom tesouro do coração cultiva-se, por exemplo, com a oração, a leitura e reflexão assídua da palavra de Deus repetindo com frequência a Paulo (“Que devo fazer, Senhor?”, Act- 22, 10), tendo uma participação ativa na comunidade cristã – grande ou pequena – onde se discerne quais são os melhores caminhos a seguir, hoje, o Mestre, como discípulos e testemunhos seus. Também aprendendo a descobrir os grandes desafios do mundo e do contexto em que vivemos. É um trabalho que não se pode fazer sozinho, por isso, todos precisamos de pessoas de confiança que nos ajudem a descobrir os argueiros que temos nos olhos.

Como nos recorda o Evangelho de hoje, “a boca fala da abundância do coração”. E isto não é sentimentalismo, pois para a cultura judaica da época, o coração não é o lugar do mero sentimento, mas o lugar da consciência, da decisão, da reflexão.

O coração é lugar de encontro entre o pensamento – que estaria na cabeça – e as entranhas, onde dominam os sentimentos. É aí onde pensamentos e sentimentos devem ser ponderados, pesados, medidos, vistos à luz da vida de Cristo. E, uma vez postos à prova e considerados conformes à nossa fé, então devem levar-nos à ação.

A palavra humana pode servir para revelar e mostrar o interior das pessoas, mas também pode servir para velá-lo e expressar, inclusivamente, o contrário do que pensamos, sentimos e somos. Portanto, a linguagem pode atuar como um cristal limpo, ou como um cristal sujo, deformando o que há no coração das pessoas.

A primeira leitura anima-nos a pôr à prova a linguagem das pessoas para a avaliar, pois o fruto mostra a qualidade da árvore.

São Paulo, na segunda leitura, anima-nos a mantermo-nos firmes e constantes; e o Evangelho aborda abertamente a reflexão sobre a coerência entre as nossas palavras e as nossas ações. Jesus afirma no Evangelho, claramente, que as palavras põem à prova as pessoas. As árvores, isto é, as pessoas dão o fruto de acordo com a nossa vida interior. As palavras nunca podem mascarar os factos. É preciso testar se, entre o que vai no nosso coração e o que é expresso pela nossa boca, há coerência, pois poderemos estar cegos aos nossos próprios limites, quando queremos ensinar outros a viver.

As palavras, portanto, além de surgir do fundo do coração, hão de vir ainda de mais longe, isto é, hão de ser palavras passadas pela reflexão e a oração, palavras iluminadas pelo Espírito que habita em nós.
Não nos fiquemos por uma vida de fé que se resuma numa moral de boas ações. Ofereçamos os nossos pensamentos e sentimentos a Cristo. Tenhamos uma vida que se alimenta da graça da presença de Deus em nós.

O mestre do outro nunca serão as nossas palavras, mas as nossas vidas. O nosso testemunho é o grande livro e a única palavra que podemos oferecer aos outros para que se convertam, se apaixonem e adiram a Cristo.

Maria, uma vez mais, nos ajuda nesta tarefa. Porque ela respondeu sim à tarefa que Deus lhe pediu, respondeu “faça-se em mim segundo a vossa palavra…”.
Imitemo-la.

Pe. Albertino Gonçalves, CM