Lições bíblicas

V Domingo do Tempo Comum

Encontramo-nos no V Domingo do Tempo Comum, e com ele iniciamos outra temática Evangélica. Depois de termos analisado o início da Missão de Jesus, desde o Seu Batismo, passando pela sua manifestação pública nas bodas de Caná e na Sinagoga de Nazaré, vemos agora o chamamento e a vocação dos primeiros discípulos.

V Domingo do Tempo Comum

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Encontramo-nos no V Domingo do Tempo Comum, e com ele iniciamos outra temática Evangélica. Depois de termos analisado o início da Missão de Jesus, desde o Seu Batismo, passando pela sua manifestação pública nas bodas de Caná e na Sinagoga de Nazaré, vemos agora o chamamento e a vocação dos primeiros discípulos. Ou seja, vemos a adesão ao projeto de vida que Jesus oferece; por outras palavras, vemos a adesão e a participação na construção do Reino de Deus. A fórmula parece simples: um convite e uma resposta! Mas será assim tão simples?

Terminada a pregação de Jesus em cima dos barcos no Mar da Galileia, vemos que Jesus se dirige a Simão e inicia um diálogo que marcará para sempre a vida daquele homem. Tudo começa com uma ordem: “faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca”. Uma ordem bastante insensata e imprevista depois de eles terem estado na faina toda a noite. Parece que Jesus está a gozar, ou a fazer escárnio pela pouca pesca que apanharam aqueles pobres pescadores. O mais ridículo ainda é que, uma pessoa que de pesca não percebe nada, dê a ordem ridícula para pescarem durante o dia. Para quem sabe do assunto, a pesca é muito mais abundante durante a noite. Mas, no desespero de não terem pescado nada, eles lançam as redes e lançam mais uma vez na confiança de que, como diz o ditado: “perdido por cem, perdido por mil”. A afirmação de Simão – “já que dizes, lançarei as redes” – constitui o essencial da fé cristã: uma adesão confiada e profunda de quem mais nada tem a não ser a esperança em Deus. Algo que vai mais além dos nossos sentimentos ou pensamentos.

“Eles assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixes, que as redes começavam a romper-se”. Simão chama em sua ajuda Tiago e João, proprietários de outra barca, e as duas embarcações quase se afundam com o peso da pesca. Ao ver isto, Simão Pedro diz: “afasta-te de mim que sou um homem pecador”. É a mesma experiência de Isaías na Primeira Leitura, que, perante a Santidade de Deus, não pode senão exclamar a sua pequenez. Sim, o encontro autêntico com Deus e com Jesus Cristo coincide com a revelação ao homem da sua própria condição de pecador. É a partir desta tomada de consciência que se abre um caminho de conversão e de uma vida nova. Não é por acaso que só agora Simão é chamado de Pedro, nome que lhe foi atribuído por Jesus para indicar o seu papel de ser a rocha sobre a qual fundará a sua comunidade.

A vocação apresentada por Deus junta-se imediatamente a uma missão: “não temas; de hoje em diante serás pescador de homens”. Pedro vê transformada a sua existência: de pescador de peixes deve converter-se em pescador de homens. Esta transformação de Pedro é a prova de que Deus, quando chama, não chama a partir do nada. Chama-nos a partir daquilo que somos, no caso de Pedro, um pescador. Tão pouco nos converte em algo fora daquilo que somos; ou seja, Pedro não deixou de ser pescador, apenas passou a ser pescador de homens. O mesmo acontece connosco: Deus não pede que sejamos outra coisa diferente daquilo que somos. Apenas quer que lhe aquilo que somos se redirecione para Ele.

É ainda de salientar que neste Evangelho assistimos a três afastamentos. Como vemos, em Pedro, tudo funciona em três: três traições, três confirmações do amor e, neste caso, três afastamentos que, como diz D. António Couto, são três aproximações:
1ª Jesus pede a Pedro que afaste a barca de terra (Lc 5,3) para poder ensinar a multidão, colocando-se ao mesmo tempo mais junto de Pedro que estava na barca.
2ª Jesus fá-lo em imperativo dirigindo-se a Pedro (Lc 5,4), dando-se aquela pesca milagrosa que aproximará ainda mais Pedro de Jesus.
3ª A terceira é a vez de Pedro (Lc 5,8) e para fazer uma profissão de fé. É aqui o cume da aproximação. A partir deste terceiro momento, Jesus passa a ser o núcleo da sua vida. Já não é mera aproximação, mas fusão.

Estas três aproximações revelam todo um processo de conhecimento de Jesus; daí a importância de olharmos para este relato como um processo de conhecimento. A conclusão da narração em que diz “eles deixaram tudo e seguiram Jesus” é a síntese sintética de todo um processo. Para deixar tudo e seguir Jesus é importante, antes de mais, conhecer a sua pessoa. Não como de um ato de estudo se tratasse. Mas como um encontro, ou, pelas palavras do Evangelho, por um “afastamento”. Um afastamento do mundo e uma aproximação ao Senhor.

Também nós somos chamados a fazer este processo: afastar a nossa barca, lançar as nossas redes e reconhecer quem é Jesus para mim. Para tal, é necessário fazer a experiência do fracasso para saborear a abundância que só em Jesus podemos encontrar.

Pe. João Soares, CM