Lições bíblicas

V Domingo da Quaresma

Há uma expressão que manifesta o nosso desagrado e repulsa pela ambiguidade e duplicidade: “tens uma segunda intenção, não estás a ser sério…” Estou a referir-me ao texto do evangelho.

V Domingo da Quaresma

1. É importante ter memória e celebrar os acontecimentos do passado…Sem ela não temos chão, perdemos as raízes. Mas a memória nunca nos pode aprisionar. É preciso manter a janela aberta e vislumbrar novos caminhos. Particularmente, quando o presente é sofrimento e dor, há o perigo de ficarmos prisioneiros do passado, facilmente idealizado, face às dificuldades encontradas.

2. Disto nos fala a 1ª leitura. Em pequenos grupos, nas suas assembleias (as sinagogas), os israelitas, no exílio, comentavam e rezavam as grandes intervenções de Deus na história antiga, narrada religiosamente por seus pais: a passagem do mar vermelho, vitórias sobre os inimigos, as maravilhas do maná, a surpresa da água no deserto….Que encanto…que maravilha! Mas, agora, Senhor, onde estás?
Quanto mais presos ao passado, mais lamentos do presente, e menos esperança no futuro.

3. Neste contexto, o profeta (2ºIsaias), o profeta do novo, fazendo-se eco da voz do Senhor, diz: “Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. Olhai, vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer, não a vedes?”
É que o regresso do exilio em nada ficará a dever ao antigo êxodo (libertação do Egito) com o deserto a florir e os animais a cantar um hino de louvor ao criador e uma alusão à renovação da aliança, quando diz: “o meu povo escolhido, que formei para mim e que proclamará os meus louvores”

4. Constitui este texto um apelo forte à leitura atenta dos sinais da presença e atuação de Deus na história, quer seja pessoal quer seja comunitária. E quando isto é feito à luz da fé, sempre se encontram sinais de esperança e que o amanhã não será uma repetição do sofrimento de hoje.

5. Há uma expressão que manifesta o nosso desagrado e repulsa pela ambiguidade e duplicidade: “tens uma segunda intenção, não estás a ser sério…” Estou a referir-me ao texto do evangelho. O que movia os escribas e fariseus não era tanto o problema do adultério, mas sim armar uma cilada a Jesus de modo que Ele não tivesse saída: se dissesse sim, deve ser apedrejada, onde estava a tão apregoada misericórdia? Se dissesse não, estaria a contrariar o grande legislador, Moisés, por quem todos tinham uma grande veneração. E isso seria motivo de condenação, objetivo deste encontro.
Jesus transfere a questão da esfera jurídica para a esfera da responsabilidade social e pessoal: quem se julgar sem pecado que atire a primeira pedra. E como não há adúltera sem adúltero, um a um, todos se foram embora. A consciência falou mais alto do que a lei; a misericórdia de Deus sobrepôs-se à justiça dos homens.

6. E aquela mulher, ao levantar-se e ao partir para casa levava a certeza de que havia alguém que não a condenava, mas que lhe pedia para reorientar a sua vida na linha da fidelidade: “Não voltes a pecar!”

7. Na segunda leitura, a vida cristã é-nos apresentada como uma corrida a exigir esforço, a relativizar muitas coisas face à descoberta de Jesus ressuscitado como Senhor e Salvador. Expressões “considero todas as coisas como prejuízo”,” considerei tudo como lixo” contrastam com a grandeza única do conhecimento de Jesus e do encontro com Ele. A partir daí, apenas um coisa interessa, é segui-lo e com a intensidade e a força de quem se esforça por alcançar outro que corre a nossa frente.
A ideia de não ficar aprisionado pelo passado volta a aparecer nesta leitura, ficando mais claro que a vida cristã verdadeira é mais condicionada pelo futuro do que pelo passado, por aquilo que esperamos ser do que por aquilo que fomos, por aquilo que esperamos, embora não o tenhamos ainda, do que por aquilo que renunciamos e perdemos.

8. Nestes últimos tempos, em que o tríplice flagelo da fome (seca), da peste (corona vírus) e da guerra (Ucrânia-Rússia), parece obscurecer os horizontes da vida, bem precisa a Comunidade cristã de desenvolver a virtude da esperança e oferecê-la como novidade ao mundo de hoje. Com a dimensão profética de Isaías dizer: olha para o futuro, algo de novo está a surgir, por isso, não te canses de correr, quer dizer, empenhar-te, fazer tudo o que está ao teu alcance… porque após o sofrimento (Paixão) vem sempre a novidade de vida (Ressurreição).
Neste tempo, estamos a celebrá-lo liturgicamente e muitos o celebram existencialmente, carregando dolorosamente a cruz do sofrimento. Todos aguardamos, em esperança, a Vida nova da Ressurreição.

Pe. José Alves, CM