Lições bíblicas

II Domingo do Tempo Comum

A Liturgia da Palavra deste domingo, ao desfiar a ladainha das maravilhas de Deus, começa exatamente com a repetida expressão por amor, por amor. A partir deste mote segue a lista das variadíssimas razões pelas quais cantamos, louvamos e adoramos o Senhor.

II Domingo do Tempo Comum

Estimados irmãos,
Ao cantarmos hoje o salmo responsorial, repetindo seis vezes o refrão anunciai no meio de todos os povos as maravilhas do Senhor, corremos o risco da distração e cantarmos as maravilhas do Senhor sem as reconhecer. Quais são as maravilhas pelas quais estou a louvar o Senhor? No mínimo posso começar por esta Santa Missa uma vez que cada Eucaristia constitui para nós um grande dom que nos alimenta pela Palavra e pelo Pão dos Anjos. A missa é aquela maravilha que muitos não reconhecem e que, por isso, precisa de ser anunciada, não pela disciplina do preceito ou pela vantagem do estipêndio, mas pela grandeza do amor. Aliás, a Liturgia da Palavra deste domingo, ao desfiar a ladainha das maravilhas de Deus, começa exatamente com a repetida expressão por amor, por amor. A partir deste mote segue a lista das variadíssimas razões pelas quais cantamos, louvamos e adoramos o Senhor: a justiça como aurora, a salvação como facho ardente, uma visão nova e um nome novo, o jovem, figura de Cristo, que desposa uma virgem, figura da Igreja, a esposa predileta, que é a alegria do marido e, ambos, são alegria do seu Deus. Não houvesse mais maravilhas e já teríamos aqui razões suficientes para cantar jubilosamente, e de braços levantados, aquele salmo de louvor.

Mas a Carta aos Coríntios eleva ainda mais o tom desta ação de graças e remete o mistério da Igreja, figurado no texto de Isaías, à Pessoa do Espírito Santo elencando os adornos da beleza da Esposa expressos nos carismas e dons espirituais. É lamentável que, decorrido meio século do Concílio Vaticano II, ainda haja um desconhecimento tão inoperativo destes dons e destes carimas na vida da igreja. É nesse contexto que se insurge o Papa Francisco quando interpela a Igreja à sua identidade sinodal. A sinodalidade da igreja não é um aditivo descartável, está no seu ADN, é uma característica identitária da sua natureza como mistério de comunhão que tem na Trindade o seu ícone. A Igreja é obra do Espírito, tempo e lugar da ação vivificadora do Paráclito, que a conduz e anima ao longo da História, como memória viva de Cristo, como fonte de carismas e ministérios, para a edificação da comunidade. É importante sublinhar que São Paulo repete quatro vezes a palavra diversidade, mas, equilibradamente, também repete quatro vezes a expressão um mesmo e só Espírito. A diversidade na unidade e a unidade na diversidade.

A narrativa das bodas de Caná pode ser inspiradora desta ministerialidade na medida em que a realização do milagre implicou a intervenção de vários protagonistas: o noivo e a noiva, Jesus e sua Mãe, os discípulos, os serventes e o chefe de mesa. Se Jesus teve poder para transformar a água em vinho, também teria o poder de realizar o milagre sozinho, sem a participação de quem quer que fosse. Mas não. Preferiu implicar todos os intervenientes conforme os dons, carismas e funções de cada qual. Em muitos lugares e realidades eclesiais, vive-se, ainda hoje, um contexto marcadamente clerical, onde os fiéis leigos são reduzidos a uma massa passiva como destinatários da ação pastoral levada a cabo pelos ministros ordenados. Este poder está ao serviço da subtração e não da multiplicação. Os apelos do Papa Francisco apontam para a urgência de um novo milagre: a transformação do clericalismo em sinodalidade sinfónica. Ora, este milagre só é possível à luz da Igreja como experiência multiforme e à luz do Espírito como mestre da unidade e das diferenças.

Com esta arte de levar o Evangelho da Alegria, Jesus fez muitos milagres, manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele. É necessário lançar as redes de outro modo, para o lado da sinodalidade, reinventar os métodos, as expressões e o ardor: um renovado Pentecostes que frutifique em novos prodígios, como nos primórdios, acompanhados da admirável manifestação da glória de Deus que move os discípulos á embriaguez da fé que agora vamos professar. Só assim cantaremos com alma e coração a interpelação do salmo: anunciai no meio de todos os povos as maravilhas do Senhor.

Pe. Mário Ribeiro, CM