Lições bíblicas

II Domingo da Quaresma

Neste segundo Domingo da Quaresma, a liturgia faz-nos contemplar o mistério da Transfiguração, no qual Jesus concede que os discípulos, Pedro, Tiago e João sintam a glória da Ressurreição: um pedaço de céu na terra.

II Domingo da Quaresma

Irmãs e Irmãos,
As leituras deste II Domingo da Quaresma convidam-nos a refletir sobre a nossa “transfiguração, a nossa conversão à vida nova de Deus; nesse sentido, são-nos apresentadas algumas pistas.

A primeira leitura apresenta-nos Abraão, o modelo do crente. Com Abraão, somos convidados a “ acreditar”, isto é, a uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios desse Deus que não falha e é sempre fiel às promessas.

A segunda leitura convida-nos a renunciar a essa atitude de orgulho, de auto-suficiência, arrogância e triunfalismo, resultantes do cumprimento de ritos externos; a nossa transfiguração resulta de uma verdadeira conversão do coração, construída dia a dia sob o signo da Cruz, isto é, do amor e da entrega da vida.

O Evangelho apresenta-nos Jesus, o Filho amado do Pai, cujo êxodo (a morte na cruz) concretiza a nossa libertação. O projeto libertador de Deus em Jesus não se realiza através de esquemas de poder e de triunfo, mas através da entrega da vida e do amor que se dá até à morte. É esse o caminho que nos conduz, a nós também, à transfiguração em “ Homens Novos”.

Neste segundo Domingo da Quaresma, a liturgia faz-nos contemplar o mistério da Transfiguração, no qual Jesus concede que os discípulos, Pedro, Tiago e João sintam a glória da Ressurreição: um pedaço de céu na terra. O Evangelista Lucas mostra-nos Jesus transfigurado no monte, lugar da luz, símbolo fascinante da singular experiência reservada aos três discípulos. Eles sobem ao monte com o Mestre, veem-no imergir-se na oração e, a uma certa altura, “alterou-se o aspeto do seu rosto” (v.29). Habituados a vê-lo quotidianamente na simples aparência da sua humanidade, diante daquele novo esplendor, que envolve também toda a sua pessoa, ficam surpreendidos. E ao lado de Jesus aparecem Moisés e Elias, que falam com Ele do seu próximo “ êxodo”, ou seja, da sua Páscoa de morte e ressurreição. É uma antecipação da Páscoa. Então, Pedro exclama: “ Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outa para Moisés e outa para Elias”. Ele gostaria que aquele momento de graça nunca acabasse!

A transfiguração dá-se num momento específico da missão de Cristo, ou seja, depois que Ele confidenciou aos discípulos que devia “sofrer muito, ser morto e ao terceiro dia, ressuscitar” (v. 22). Jesus sabe que eles não aceitam esta realidade – a realidade da cruz, a realidade da morte de Jesus – e então quer prepará-los para suportar o escândalo da paixão e da morte de cruz, a fim de que saibam que este é o caminho pelo qual o Pai celeste fará chegar à glória o seu Filho, ressuscitando-o dentre os mortos. Este será também o caminho dos discípulos; ninguém alcança a vida eterna, a não ser seguindo Jesus, carregando a própria cruz na vida terrena. Cada um de nós tem a sua cruz. Jesus mostra-nos o fim deste percurso, que é a Ressurreição, a beleza, carregando a própria cruz. Portanto, a Transfiguração de Cristo indica-nos a perspectiva cristã do sofrimento. Efetivamente, o sofrimento é uma passagem necessária, mas transitória. O ponto de chegada para o qual somos chamados é luminoso como o rosto de Cristo transfigurado: nele encontram-se a salvação, a bem-aventurança, a luz, o amor ilimitado de Deus. Mostrando assim a sua glória, Jesus assegura-nos que a cruz, as provações e as dificuldades com as quais nos debatemos têm a sua solução e superação na Páscoa. Por isso, nesta Quaresma, subamos também nós ao monte com Jesus! De que modo? Com a oração: a prece silenciosa, a oração do coração, sempre à procura do Senhor. Permaneçamos alguns momentos em recolhimento, fixemos o olhar interior na sua face e deixemos que a sua luz nos invada e se irradie na nossa vida. Com efeito, o Evangelista Lucas insiste sobre o facto de que Jesus se transfigurou “ enquanto orava”. A oração em Cristo e no Espírito Santo transforma a pessoa a partir de dentro e pode iluminar os outros e o mundo circundante. Quantas vezes encontramos pessoas que iluminam, que emanam luz nos olhos, que têm um olhar luminoso! Rezam, e a oração faz isto: torna-nos resplandecentes com a luz do Espírito Santo!

Sigamos com alegria o nosso itinerário quaresmal como caminho para a Páscoa de Jesus e a nossa páscoa… Demos espaço à oração e à Palavra de Deus, que a liturgia nos propõe abundantemente nestes dias. A Virgem Maria nos ensine a permanecer em Jesus, até quando não o entendemos nem o compreendemos. Por isso, somente permanecendo com Ele, veremos a sua glória.

“O ponto de nossa chegada é luminoso como o rosto de Cristo transfigurado.” (Papa Francisco). Para tal, é sem dúvida necessário, enquanto peregrinos nesta terra, no meio de um cenário de pandemia, guerra, ódio, vingança, e não de amor, de perdão, misericórdia, diálogo construtivo… ser verdadeiros sinais e testemunhas de Esperança na construção dum Mundo Novo. Este não se constrói com armas bélicas, que matam, destroem, mas com as mesmas armas, usadas pelo verdadeiro Mestre, Jesus Cristo: diálogo, amor, perdão, proximidade, humildade, Esperança… Na verdade, “a Esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe a Crença. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. Voltam sonhos nas asas da Esperança.” (Augusto dos Anjos).

Pe. João Maria, CM