Uma ecologia para uma casa comum espiritual
Pensar uma ecologia para uma casa comum espiritual não é romantizar a natureza nem espiritualizar a responsabilidade. É assumir a utopia como força crítica que impede o dano, a “ecotopia” como escola de hábitos concretos e a esperança escatológica como motor de transformação hist órica.


Pe. Luís M. Figueiredo Rodrigues
24 de dezembro de 2025
A partir de um horizonte bíblico, propõe-se uma ecologia para uma casa comum espiritual: não romantiza a natureza nem espiritualiza a responsabilidade, antes converte o desejo e os hábitos para reabrir o futuro do comum. Entre a utopia como bússola ética e a esperança pascal como motor histórico, delineiam-se práticas de cuidado, sobriedade e justiça que contrariem as contra-utopias do medo, do consumo e do controlo.
A utopia como provocação ética
Há imagens que nos desinstalam, como aquela que o profeta Isaías nos oferece: “Nenhum deles fará mal nem causará dano em todo o meu santo monte” (11,9), onde o lobo vive com o cordeiro e um menino conduz os animais que antes eram inimigos. Esta não é uma promessa de um mundo biologicamente impossível, mas uma metáfora poderosa que nos interpela. A verdadeira casa comum não é apenas o planeta em que vivemos, mas também o espaço espiritual onde aprendemos a conter a lógica do dano e da destruição. A utopia, nesse sentido, não é uma fuga da realidade, mas uma tensão criativa que impede a estagnação e denuncia qualquer tentativa de colonizar o futuro com os moldes do presente. Quando a utopia se absolutiza e tenta impor-se como realidade, transforma-se em distopia. Mas, quando é assumida como horizonte que inquieta e inspira, torna-se uma bússola ética.
Entre o possível e o real
O pensamento crítico contemporâneo ajuda-nos a compreender esta ambivalência da utopia: ela é simultaneamente verdade e não-verdade, fértil e estéril, poderosa e impotente. O seu ponto decisivo, porém, é o tempo. A utopia não é uma fantasia fora da história, mas uma forma de acelerar, com prudência, as possibilidades ainda não realizadas do nosso tempo. É a partir desta consciência que podemos estabelecer um critério para a casa comum: imaginar uma nova ordem não significa ignorar os ritmos da realidade, mas também não podemos permitir que esses ritmos sirvam de desculpa para a inércia.
A distopia que se infiltra no quotidiano
A distopia, por outro lado, não se manifesta apenas em regimes autoritários ou cenários apocalípticos. Ela infiltra-se silenciosamente nos nossos hábitos, quando a paz se reduz a uma trégua armada e a felicidade se transforma numa simples contabilidade de recursos. Quando o medo da morte e a obsessão pelo controlo passam a ditar as regras da vida, a casa comum deixa de ser um espaço de encontro e torna-se um condomínio de desconfianças. O outro torna-se descartável, e os futuros possíveis encolhem até caberem no conforto do que já conhecemos. É nesse terreno que florescem os evangelhos da prosperidade e os totalitarismos elegantes, que chamam “realismo” à renúncia cínica de qualquer alternativa. A ecologia espiritual começa precisamente por aqui: desmascarar os ídolos que prometem segurança à custa da relação, da confiança e da abertura ao outro.
Ecotopia: caminhar com leveza sobre a Terra
Se a utopia continua a ser necessária, a ecotopia ajuda-nos a perceber o que ela pode significar concretamente: caminhar com leveza sobre a terra, reconhecendo a Terra como “mãe”. Não se trata apenas de reformar sistemas, mas de uma verdadeira conversão do desejo, capaz de redesenhar o tempo de trabalho, o uso dos resíduos, a mobilidade e o modo de governar, tudo em nome de uma cultura da suficiência partilhada. Aspirar a uma “ecosofia” é aproximar-se de uma sabedoria que a tradição crente reconhece bem: tudo está interligado, e a liberdade humana é tanto mais real quanto mais se orienta para o bem comum da vida.
O ecossistema espiritual
Mas esta casa comum é também espiritual. Podemos falar de um “ecossistema espiritual”, não como uma metáfora piedosa, mas como a confissão de que o Espírito vivifica toda a criação e nos inclui, como subsistemas, no grande sistema da vida. Nesta perspetiva, a escatologia não é uma anestesia para o presente, mas o coração inquieto que transforma a esperança em ação. A “paz com Deus” torna-se “discórdia com o mundo” precisamente onde o presente desmente a promessa. Cuidar do solo, reparar estruturas que ferem, converter estilos de vida que magoam: tudo isso é expressão concreta da fé. Fortalecidos por esta esperança pascal, os crentes reconhecem que toda promoção humana e responsabilidade ecológica é participação no poder do Ressuscitado. A casa comum torna-se, assim, um lugar sacramental: um espaço onde a graça trabalha a história por dentro, e onde a liturgia se prova no quotidiano, em gestos de justiça, hospitalidade e reconciliação.
Práticas para uma espiritualidade ecológica
Desta visão decorrem implicações práticas importantes. É preciso manter uma crítica constante às falsas utopias — sejam elas tecnocráticas, consumistas ou obcecadas pela segurança — que reduzem o possível ao que é mensurável e, com isso, deixam os mais frágeis sem futuro. A espiritualidade ecológica resiste a esse fechamento cultivando sobriedade, atenção e gratuidade, virtudes que reabrem o horizonte do comum. É também necessário recuperar a paciência institucional, capaz de descentralizar, aproximar e reencantar a política, entendendo-a como uma poética que integra o imaginário e não teme os ritmos lentos quando estes salvam os vínculos. E é fundamental promover uma pedagogia da escuta, que forme consciências capazes de distinguir entre conforto e consolação, produtividade e fecundidade, crescimento e plenitude. Porque uma casa comum espiritual não se mede pela acumulação de coisas, mas pela qualidade das relações que reconstrói.
Entre o já e o ainda-não
No fundo, pensar uma ecologia para uma casa comum espiritual não é romantizar a natureza nem espiritualizar a responsabilidade. É assumir a utopia como força crítica que impede o dano, a “ecotopia” como escola de hábitos concretos e a esperança escatológica como motor de transformação histórica. Entre o já e o ainda-não, a tarefa é clara: resistir à distopia, cultivar práticas de cuidado que façam da terra e das relações uma boa casa, e deixar que o Espírito, respirando em toda a criação, nos eduque no único critério que verdadeiramente importa: que não haja dano nem destruição no monte do Senhor.



