Quem somos? Apontamentos de Edward Schillebeeckx para a compreensão da condição humana
Para Schillebeeckx, a condição humana oferece o ponto de partida para uma maior compreensão do mundo e da realidade de Deus. Mas como a podemos caracterizar? Em vez de dar uma definição abstrata, Schillebeeckx parte da experiência concreta da vida.


Sónia Monteiro
25 de março de 2026
Edward Schillebeeckx é um dos teólogos cristãos mais importantes do século XX, cujo pensamento continua a influenciar muitos autores actuais. A sua teologia procurou responder aos acontecimentos que, na sua época, marcaram a Europa e a Igreja Católica, nomeadamente a Segunda Guerra Mundial e o Concílio Vaticano II. A partir da década de 70, a sua reflexão ganha um profundo sentido histórico. Para o teólogo dominicano, a Igreja não se deve opor ao mundo, nem aceitar tudo de forma acrítica. Deve, acima de tudo, “descobrir o humano de Deus” que habita em cada momento histórico e comunicá-lo de forma compreensível para todos, crentes e não crentes.
Para Schillebeeckx, a condição humana oferece o ponto de partida para uma maior compreensão do mundo e da realidade de Deus. Mas como a podemos caracterizar? Em vez de dar uma definição abstrata, Schillebeeckx parte da experiência concreta da vida. A partir daí, propõe um conjunto de pressupostos fundamentais–a que chama “constantes antropológicas” –que orientam a ação humana e ajudam a promover a integridade de todos e de cada um.
1. Corporalidade
O corpo é essencial à nossa humanidade. É através dele que nos ligamos ao mundo, comunicamos e nos relacionamos com outras criaturas e com a natureza. É também através desta relação que percebemos os nossos limites e os limites do próprio mundo. A actual crise ecológica mostra como esta dimensão tem sido muitas vezes esquecida.
2. Relação com os outros
O ser humano não existe sozinho, coexiste: existe com outros. Não vivemos para nós próprios. Pela relação transcendemos a nossa individualidade. O rosto recorda-nos que não nos destinamos a nós mesmos: não vemos o nosso próprio rosto, ele existe para (ser reconhecido pelos) os outros.
3. Sociabilidade
A identidade pessoal não se esgota na relação “eu-tu.” Existe uma dimensão política e social que é importante cuidar. Vivemos em sociedade, criamos instituições e somos também moldados por elas. Estas estruturas devem servir para promover a liberdade, a responsabilidade e a vida em comum. Por isso, é importante estar atento às estruturas históricas e sociais e à forma como estas promovem ou ameaçam a integridade da vida.
4. Condicionados pelo tempo e espaço
Somos sempre marcados pelo contexto em que vivemos — histórico, cultural e geográfico. Não existe uma visão totalmente neutra ou fora da história sobre o que é ser humano. O que dizemos sobre o humano tem sempre uma natureza interpretativa. Esta consciência é relevante ajuda a evitar visões absolutas e fechadas sobre o outro e sobre a vida.
5. Praxis
A condição humana pressupõe um equilíbrio entre teoria e prática, entre pensar e agir. É nesta ligação entre reflexão e acção que vamos construindo formas de vida mais justas e humanas, aprendendo com a tradição, mas também sendo capazes de a transformar.
6. Orientação futura
O ser humano vive em direcção ao futuro, a que Schillebeeckx chama de “elemento utópico da consciência humana.” Este horizonte pressupõe fé e esperança, independentemente de terem ou não um carácter religioso. É nesta busca que vamos encontrando sentido para a vida.
7. A Síntese das seis constantes
Todas estas dimensões estão ligadas entre si. Nas suas múltiplas conexões, mostram a riqueza e a diversidade da experiência humana, afirmando o pluralismo que caracteriza a nossa vida e a vida em comum. Esta consciência ajuda-nos a habitar o mundo e a aprender a viver com diferentes formas de vida.
Esta leitura da condição humana proposta por Schillebeeckx revelam um desejo transversal por uma vida plenamente vivida que, para os cristãos, encontra em Jesus o seu modelo. Não se trata, portanto, de oferecer uma definição fechada do que constitui a natureza humana mas de encontrar um conjunto de pressupostos que nos ajudam a viver de uma forma mais integra e em comunhão. Ao contrário do que possa parecer, a possibilidade de construção desta comunhão não passa pela exclusão, desvalorização ou negação do diferente (não vamos repetir os erros do passado!), mas pelo aprofundamento do diálogo com a própria tradição e com a tradição do outros, na busca de uma integridade comum.
