top of page
  • Facebook ícone social
  • Instagram
  • YouTube ícone social

Inteligência Artificial: progresso à custa de quem

A Doutrina Social da Igreja recorda-nos que o progresso técnico não é neutro. Desde a Rerum Novarum até à Laudato si’, a Igreja tem insistido que o desenvolvimento autêntico deve respeitar a dignidade humana e promover o bem comum. A tecnologia, quando desligada de critérios éticos e de responsabilidade coletiva, pode aprofundar desigualdades em vez de as resolver.

Inteligência Artificial: progresso à custa de quem
Mafalda Guia
25 de fevereiro de 2026

A sustentabilidade da Casa Comum está a ser pressionada por uma revolução silenciosa. Terei eu consciência de que a forma como hoje utilizamos a Inteligência Artificial pode agravar injustiças e acelerar impactos ambientais que marcarão as próximas gerações?

A Inteligência Artificial (IA) tornou-se o novo símbolo do progresso e da inovação: promete diagnósticos médicos mais rápidos, cidades mais eficientes, respostas mais eficazes à crise climática. É apresentada como uma ferramenta indispensável para o desenvolvimento sustentável. Mas, no meio do entusiasmo tecnológico, raramente se coloca uma pergunta essencial: qual é o custo ambiental desta revolução?

A IA não está localizada numa “nuvem” etérea, i.e. vive em infraestruturas físicas: centros de dados, servidores de alta capacidade, sistemas de arrefecimento intensivos e cadeias globais de extração mineral. O treino e a operação de grandes modelos exigem quantidades significativas de eletricidade e água. À medida que a procura por serviços baseados em IA cresce, cresce também a pressão sobre redes energéticas já fragilizadas e sobre recursos naturais cada vez mais escassos. Este não é apenas um problema técnico. É uma questão política e de justiça social.

Grande parte da energia que alimenta os centros de dados continua a depender de fontes fósseis. Ao mesmo tempo, a produção de equipamentos exige lítio, cobalto e terras raras, frequentemente extraídos em contextos marcados por desigualdade, degradação ambiental e condições laborais precárias. Os benefícios da inovação concentram-se sobretudo nos países tecnologicamente avançados, enquanto os impactos ambientais e sociais recaem, mais uma vez, sobre comunidades vulneráveis. Não estaremos a repetir um padrão conhecido? Um modelo económico onde o conforto e a eficiência de uns assentam na exploração silenciosa de outros?

A Doutrina Social da Igreja recorda-nos que o progresso técnico não é neutro. Desde a Rerum Novarum até à Laudato si’, a Igreja tem insistido que o desenvolvimento autêntico deve respeitar a dignidade humana e promover o bem comum. A tecnologia, quando desligada de critérios éticos e de responsabilidade coletiva, pode aprofundar desigualdades em vez de as resolver.

Também no debate recente sobre Inteligência Artificial, a Santa Sé tem defendido a necessidade de uma governação internacional que coloque a pessoa humana no centro. No documento Antiqua et Nova publicado em janeiro de 2025, a Igreja reafirma que a IA deve ser vista “como uma ferramenta complementar à inteligência humana” e que não pode substituir as relações humanas nem ser divinizada, a mesma deve estar “ao serviço da pessoa e do bem comum”. A inovação não pode ser guiada apenas pela lógica do mercado ou pela competição geopolítica. Se assim for, o risco é transformar a Casa Comum num dano colateral da corrida tecnológica.

Falar dos impactos ambientais e sociais da IA é falar de escolhas estruturais. Quem define os limites de consumo energético? Quem regula o uso de água em regiões sob stress hídrico? Quem garante que as cadeias de fornecimento respeitam direitos humanos e critérios ambientais? Sem transparência e regulação eficaz, a narrativa da “transição digital verde” pode tornar-se apenas mais uma estratégia de legitimação de um modelo insustentável.

A justiça ambiental é inseparável da justiça social. Se o aumento do consumo energético pressionar os preços da eletricidade, os mais pobres serão os primeiros afetados. Se a extração mineral intensificar conflitos e deslocações forçadas, serão as comunidades locais a pagar o preço. Se os lucros permanecerem concentrados em poucas multinacionais, estaremos perante uma nova forma de desigualdade estrutural.

Não se trata de rejeitar a tecnologia: trata-se de perguntar ao serviço de quem é que a mesma está. A Doutrina Social da Igreja recorda que o desenvolvimento autêntico deve respeitar a dignidade humana e o bem comum, e que as inovações sociais e económicas devem ser acompanhadas por justiça e equidade.

Talvez o verdadeiro desafio não seja desenvolver máquinas cada vez mais inteligentes, mas garantir que as nossas decisões coletivas sejam mais responsáveis. O futuro digital não pode ser construído à custa da Terra e dos mais frágeis. Se queremos que a Inteligência Artificial contribua para cuidar da Casa Comum, precisamos mais do que inovação: precisamos de ética, regulação e compromisso político. Porque o progresso que ignora os seus custos humanos e ambientais deixa de ser progresso, torna-se apenas mais uma expressão de desigualdade disfarçada de avanço.

Mesa Redonda
Missão onlife:
Cultura
Sociedade
Casa Comum
Missão
bottom of page