Integridade da Criação

A noção de integridade, isto é, o universo ajustado na sua totalidade, implica uma forte interdependência para que seja possível a harmonia e a plenitude entre todos os seres, para que haja um equilíbrio de forças.

Integridade da Criação
Maria Julieta Mendes Dias, rscm
31 de agosto de 2022

A ideia de Criação evoca o resultado de uma acção divina, sobretudo a partir das narrativas bíblicas: a organização do Caos. Não vamos enveredar pelas várias teorias da origem do mundo, do universo, do cosmos, mas ter como referencial as narrativas do Génesis que não são de ordem científica. São textos religiosos de natureza mítica em linguagem poética. Não são uma história científica das origens, mas a apresentação da harmonia do mundo, fruto de Deus que não deixou o universo na confusão e no caos. Do caos fez surgir um cosmos, uma realidade ordenada e harmoniosa(1).

A noção de integridade, isto é, o universo ajustado na sua totalidade, implica uma forte interdependência para que seja possível a harmonia e a plenitude entre todos os seres, para que haja um equilíbrio de forças.
Em termos cristãos, a percepção de que é necessário debater as questões que se colocam às ciências da fé e às da natureza foi desperta na Conferência sobre o Meio Ambiente, promovida pelas Nações Unidas em Estocolmo, em 1972, tendo sido convidada a participar a Comissão das Igrejas para os Assuntos Internacionais do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).

No entanto, só na década de 80 as Igrejas começaram a sentir a urgência em enfrentar a problemática da «Criação» e da responsabilidade cristã para com ela. De facto, foi em 1989, na Assembleia Ecuménica Europeia, em Basileia, que apareceu, pela primeira vez, no tema da própria Assembleia: Paz e Justiça para a Criação Inteira. Em 1990, o Congresso Mundial do CMI, realizado em Seul, teve como programa: Paz, Justiça e Salvaguarda da Criação. Em 1991, a Assembleia Geral do CMI, em Camberra, continuou o programa de Seul. Em 1994, o Núcleo Central do CMI, na África do Sul, decidiu que uma das quatro Unidades de Serviço do Conselho se chamaria, precisamente, Paz, Justiça e Integridade da Criação e se ocuparia, de forma regular e sistemática, de toda esta questão(2).

Os Franciscanos foram, no mundo católico, os primeiros a assumir um trabalho sistemático a favor da Paz, Justiça e Integridade da Criação. Hoje, praticamente todas as Congregações Religiosas têm grupos com o objectivo de provocarem um trabalho capilar nesta área.
Bento XVI, na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, faz a correlação da paz e da integridade da criação, dando-lhe o seguinte título “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação”(3).

O ser humano situado no Cosmos – considerado mesmo um microcosmos – é, muitas vezes, o centro do universo que domina; outras, está perante forças da natureza que o ultrapassam e o dominam. No entanto, a percepção bíblica é a da harmonia que Deus fez – tudo estava ajustado – e que tanto pode ser danificada pela acção humana, não respeitando os ritmos, os tempos, as diferenças e as semelhanças de tudo o que existe, como pode ser beneficiada com o seu poder transformador exercido para cuidar, tratar do jardim que é a Terra, a sua casa (oikos).

O «tempo» das origens plasmado em sete dias, sendo o último para descansar, não será a intuição de que o ser humano, para garantir a justeza primordial, tem obrigações para com esta Terra que habita? Garantir a integridade da criação, a harmonia cósmica, a justeza dos começos, não passará por não comer o fruto da árvore que está no meio do jardim (Gn 2, 17; 3,3)? Esta proibição é um símbolo ético para dizer que o ser humano não pode fazer tudo o que lhe apetecer. Há limites que não pode ultrapassar se quiser garantir o futuro.

Na primeira narrativa da Criação – marcada pela cadência do tempo semanal – o ser humano é criado no sexto dia, recebe a incumbência de ser fecundo, enchendo a terra e dominando-a. Termina com a bênção do sétimo dia, dia do descanso, o sabbat, depois de verificar que tudo era muito bom; tudo estava no seu justo lugar e proporção (Gn 1 – 2, 4a). Na segunda narrativa (Gn 2, 4bss) não há essa cadência. O homem é criado e colocado num jardim, no Éden, para ser o seu cultivador, transformador e guardião, mas nesta, ao contrário da primeira, constata-se que nem tudo era bom: não era bom que comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, não era bom que estivesse só. Para superar esta última lacuna, apareceu a mulher e, acerca da árvore, resultou uma proibição.

A tarefa do ser humano não é explorar a terra, mas trabalhá-la para melhor a poder fruir. Não tem de ter uma concepção quietista da vida nem de consumista a todo o custo, no entanto, a integridade da criação exige imperativos éticos porque se trata de uma integridade de equilíbrios.

A ciência, embora não tenha encontrado uma teoria irrefutável da origem do universo, mostra-nos a inter-relação, a interdependência, a ligação dos organismos vivos ao seu meio ambiente.

Por outro lado, os modelos de desenvolvimento adoptados, baseados no desejo de progresso ilimitado, sobretudo a partir do século XVIII, evidenciam a insustentabilidade desse desenvolvimento. A natureza não o suporta. A partir da Revolução Industrial, a velocidade constante de produção, o avanço do mundo urbanizado e a poluição das actividades bélicas e industriais não respeitam a capacidade regenerativa dos recursos naturais renováveis e ameaçam esgotar os não renováveis.

A crise generalizada, identificada pelas ciências e reflectida na sociedade, pode ser entendida como ameaça ou como oportunidade. As ameaças já são mais do que evidentes, mas as crises, na sua própria noção, são também oportunidade, tempo de discernimento, de fazer memória e perspectivar o futuro, para que o Universo seja, efectivamente, o jardim da vida e não transformado em lugar da morte.

E se a harmonia das origens não tiver sido algo perdido, mas horizonte a alcançar através de uma acção de respeito, cuidado e desenvolvimento da terra como uma bela habitação (oikos) do ser humano? Seria a nossa oportunidade de colaborar na criação da Natureza Inacabada, como sustenta Francisco J. Ayala(4). Esse horizonte levar-nos-ia ao Reino onde o bem de uns não poderá ser a desgraça de outros, mas onde existe uma convivência harmoniosa que vem de uma concepção holística: a natureza existe em formas distintas e ligadas, como um todo, da qual o ser humano é o rei criado à imagem de Deus, Rei do Universo, que zela pela harmonia global(5).

(Texto inicialmente publicado em 22 de maio de 2022: https://casacomum.pt/escutando-e-caminhando-juntos/).

(1) Cf. Frei Bento, O.P., Símbolos do Sagrado na Justiça e na Religião, in Tribunal da Relação de Lisboa, Uma Casa da Justiça com Rosto, p. 233.
(2) Cf. René Coste, A Dinâmica Ecuménica “Justiça, Paz, Preservação da Criação” (PJPC), in Concilium 236 (1991/4), pp.23-35.
(3) http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_benxvi_mes_20091208_xliii-world-day-peace_po.html
(4) A natureza Inacabada, Dinalivro, Lisboa, 1998.
(5) Cf. Frei Bento, O.P., Símbolos do Sagrado na Justiça e na Religião, in Tribunal da Relação de Lisboa, Uma Casa da Justiça com Rosto, p. 233.
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