Dos outros ao nós – a consciência ecológica da interdependência humana

As crises que atravessamos são essencialmente fruto dos valores que norteiam as nossas ações. Os atuais desafios são, por isso, uma oportunidade para refletir sobre o sentido da nossa existência e a forma de organização da vida e das sociedades.

Dos outros ao nós – a consciência ecológica da interdependência humana
Ricardo Cunha
23 de novembro de 2022

A segunda década do século XXI tem sido marcada por diversos flagelos globais, com consequências trágicas para a humanidade. Não bastava a crise sanitária que dominou o espetro mundial dos últimos anos, eis que estamos a braços com uma guerra, geograficamente perto do contexto europeu. Para além das perdas humanas e humanitárias, a guerra na Ucrânia criou desequilíbrios no sistema macroeconómico, com consequências para o quotidiano das pessoas.

A guerra na Ucrânia colocou novamente em cima da mesa a fragilidade do ecossistema económico e social em que vivemos. O desequilíbrio do sistema económico provoca rápidas alterações nas finanças das famílias, com graves consequências sociais. Rapidamente nos voltamos a aperceber da interdependência humana. “É verdade que uma tragédia global como a pandemia da Covid-19 despertou, por algum tempo, a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos” (FT 32). Perante o atual cenário de guerra, a expressão ‘os outros’ traz, de novo, lugar à exigência da sua substituição pelo ‘nós’.

Seria de esperar que a tribulação, a incerteza e a consciência dos nossos limites fossem uma oportunidade para estabelecer novas relações fundamentais para a existência humana: as relações com Deus, com o próximo e com o mundo natural. Em vez disso, procuramos restabelecer os padrões de vida pré-pandemia, marcadamente autorreferenciados e consumistas. A interdependência exige que cada um de nós e, simultaneamente todos, percebamos que não basta compreender as consequências da perda do equilíbrio económico e social, mas também a exigência da procura de soluções a partir de um projeto global. Esta busca ultrapassa o espetro de ações isoladas e exige uma concertação alargada, seja no plano “microrrelacional” de cada um, seja no plano “macrorrelacional” internacional. Do ponto de vista ambiental tal é bem visível, por exemplo, no domínio energético. Ao contrário da velha e rica Europa que está a caminhar a passos largos para a transição energética, países em desenvolvimento continuam com dificuldades para aceder a energia de forma económica, recorrendo e produzindo energias altamente poluentes. Sem uma articulação e programação mundial os esforços até agora feitos poderão não dar o fruto desejado, uma vez que os países em desenvolvimento não têm recursos que permitam desenvolver a implementação de energias renováveis. Do ponto de vista individual, enquanto nos países desenvolvidos continuamos a consumir energia acima das nossas capacidades de produção (como indicam os dados da EUROSTAT em 2020 a Europa importou 57,5% da energia que consumiu), os habitantes dos países em desenvolvimento continuam com dificuldades em aceder à eletricidade, como na Índia, onde 289 milhões de indianos não têm eletricidade em casa.

Apesar de todos os desenvolvimentos tecnológicos que a(s) ciência(s) nos oferece(m), os problemas que nos assolam a partir desta consciência da interdependência humana, mostram a fragilidade de um projeto em que pretendemos ser senhores absolutos da própria vida e de tudo o que existe. As crises que atravessamos são essencialmente fruto dos valores que norteiam as nossas ações. Os atuais desafios são, por isso, uma oportunidade para refletir sobre o sentido da nossa existência e a forma de organização da vida e das sociedades. “Oxalá não seja inútil tanto sofrimento, mas tenhamos dado um salto para uma nova forma de viver e descubramos, enfim, que precisamos e somos devedores uns dos outros, para que a humanidade renasça com todos os rostos, todas as mãos e todas as vozes, livre das fronteiras que criamos.” (FT34). Estamos perante mais um momento-chave da evolução da consciência ética da humanidade. Já ao longo da história, a humanidade foi capaz de a partir de momentos de crise dar largos passos de reorientação do rumo dos valores dos seus valores. Exemplo disso, foi o trabalho desenvolvido em prol dos Direitos Humanos no período posterior à segunda guerra mundial. O atual desafio está na compreensão da crise ecológica como demonstração de uma crise ética, cultural e espiritual, onde “A abertura a um ‘tu’ capaz de conhecer, amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana” (LS 119), que cria formas de relação necessária à vida do ser humano.

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