Desigualdade planetária

A continuidade do mundo em que vivemos está comprometida. Terei eu consciência de que o maior impacto das alterações climáticas recai sobre os mais pobres?

Desigualdade planetária
Mafalda Guia
04 de agosto de 2021

O dia 29 de julho de 2021 ficou marcado pelo dia em que a Humanidade esgotou, uma vez mais, os recursos biológicos e naturais que o planeta Terra tem capacidade para renovar durante 12 meses. Segundo a organização não governamental (ONG) norte-americana Global Footprint Network, isto significa que a partir deste dia e até ao final do ano estamos a viver em défice ecológico. É um dado importante, que tem como principal objetivo alertar-nos para o facto de estarmos à beira de um colapso ambiental. Não é possível prever o dia nem a hora, e muito menos a ordem de grandeza das consequências do colapso ambiental, uma vez que muitos dos especialistas em alterações climáticas preveem que os impactos negativos possam ser muitíssimo superiores àquilo que são as previsões atuais. No entanto, a verdade é que isso pouco importa, porque se observarmos com atenção as notícias das últimas semanas, os sinais de alerta da nossa casa comum são mais do que evidentes: em pleno verão, cheias devastadoras no centro da Europa, que mataram centenas de pessoas e que destruíram casas e vilas inteiras; o incêndio florestal na Califórnia, que duplicou de tamanho em apenas dois dias e que é o maior desde o início do ano; os tornados na Pensilvânia que deixaram um grande rasto de destruição; as temperaturas absurdas em alguns estados dos Estados Unidos da América, que provocaram um número considerável de mortos e que foram responsáveis pela morte de milhões de mexilhões, mariscos, estrelas do mar e outros animais marinhos. Infelizmente, estes são alguns dos exemplos das tragédias ambientais que têm acontecido no último mês de julho, tragédias essas que têm tendência para continuar a acontecer, com uma severidade cada vez maior e mais letal.

Temos de agir, não há tempo a perder! A possibilidade de minimizar o colapso ambiental (sim, porque apesar de não existir um dia marcado no calendário para esse colapso, o mesmo já começou e é impossível negar tal facto) está nas nossas mãos. Se criámos esta situação, então também temos de ser capazes de a resolver, e rápido, porque a Terra não espera. No entanto, importa refletir sobre quem é este “nós” que precisa de agir. No limite, somos todos nós: pessoas de todas as idades, raças, profissões, orientações religiosas, de toda a parte do mundo. À partida, sou eu, a minha família, os meus amigos, os meus colegas, a comunidade onde vivo, porque todos temos uma quota parte da responsabilidade pelo que está a acontecer ao mundo. Mas será mesmo assim? Será que todos têm a mesma quota parte da responsabilidade? Creio que não. Infelizmente, a realidade é esta: o problema das alterações climáticas é de todos, porque todos habitamos a mesma casa, mas as pessoas que vivem (e sobrevivem) em países subdesenvolvidos pouco contribuíram para esta situação. Parece ironia, mas a verdade é só uma: são as pessoas mais pobres, as que menos contribuem para as alterações climáticas, que irão sofrer as piores consequências. Como o Papa Francisco escreve na carta encíclica Laudato si’, estamos perante a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta: “os impactos mais sérios recairão (…) sobre os países em vias de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afetados por fenómenos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsistência dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados serviços do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. Não possuem outras disponibilidades económicas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos climáticos ou enfrentar situações catastróficas, e gozam de reduzido acesso a serviços sociais e de proteção”.

Este é o dilema, a cruel injustiça, porque são precisamente os pobres, aqueles que pouco ou nada têm e que menos contribuem para o problema, que mais irão sofrer com as alterações climáticas. Enquanto que nos países desenvolvidos os governos e os mais diversos organismos começam a dar passos importantes para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera, nos países subdesenvolvidos a atenção está em resolver problemas de base, como o acesso à saúde, à educação, à água e ao saneamento, ou seja, o foco está em melhorar as condições de vida destas pessoas que vivem em condição de pobreza. E aqui estamos perante um outro dilema: quando as pessoas melhoram as suas condições de vida, começam a fazer mais coisas que provocam mais emissões de gases. É neste sentido que precisamos de novas soluções para que os mais pobres possam melhorar as suas vidas sem prejuízo do clima. Alcançar este objetivo significa conseguir, durante os próximos anos, reduções acentuadas nas desigualdades de rendimento, de oportunidades, de género, de exposição ao risco, entre países e dentro dos países. É preciso que os países desenvolvidos, os grandes responsáveis pelas alterações climáticas, pensem não apenas nas suas populações, mas também nos mais pobres e que em conjunto com os países subdesenvolvidos possam desenvolver estratégias e fornecer apoio para que os mesmos cresçam de forma sustentada, a todos os níveis.

A nós, cidadãos comuns, cabe-nos não só mudar o nosso estilo de vida consumista para um estilo de vida amigo do ambiente, mas também ser uma voz profética para que os governos, empresas e organismos públicos e privados se unam para travar o problema das alterações climáticas. Façamos como nos pede o Papa Francisco: “as alterações climáticas – que têm não só relevância ambiental, mas também ética, social, económica e política – afetam, acima de tudo, a vida dos mais pobres e mais frágeis. Apelo a um compromisso coletivo e solidário e uma cultura de cuidados, que coloquem a dignidade humana e o bem comum no centro da ação, bem como a criação de uma estratégia para reduzir as emissões no âmbito da adoção de algumas medidas que não podem ser adiadas por mais tempo para travar a crise ambiental”. Que todos nós sejamos agentes de mudança, por nós e pelos outros. O grito da terra é o grito dos pobres!

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