Cuidar da casa comum: um desafio vivido em clave ecuménica

O cuidado da casa comum entrou definitivamente na agenda das Igrejas e, sobretudo, tornou-se um caminho para a colaboração ecuménica. O percurso feito pelas diversas confissões cristãs e as muitas iniciativas que hoje reúnem cristãos de diferentes tradições num empenho comum pela salvaguarda da criação testemunham a importância e a fecundidade desta colaboração e dão uma renovada credibilidade à sua luta por um mundo mais justo e fraterno.

Cuidar da casa comum: um desafio vivido em clave ecuménica
João Luís Fontes
16 de fevereiro de 2022

Ao longo dos últimos domingos, a liturgia tem-nos proposto a leitura da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios. É interessante o percurso que o Apóstolo dos Gentios faz com esta comunidade, que ele fundou e que tanto estima, mas que perde, a determinado ponto, a noção do essencial. É a estes cristãos que Paulo relembra, por isso, como devem aprender a reconhecer o seu próprio dom e a acolher o dom dos outros, pois só nessa comunhão a Igreja se constrói e pode ser sinal de unidade e de reconciliação. É nesse acolhimento mútuo da diversidade que pode crescer o corpo de Cristo que é a Igreja, animado pelo mesmo Espírito. Também por isso, lhes relembra o caminho mais excelente: o do amor, que supera tudo o resto. Há-de escrever-lhes, mais tarde, entre lágrimas, outras cartas e enviar emissários, pois certos pregadores teimavam em obscurecer a novidade absoluta do Evangelho exigindo aos cristãos a manutenção de antigos rituais de iniciação judaicos e o respeito por normas e prescrições que se haviam tornado caducas.

O percurso por estas cartas mostra-nos como, não só nunca houve comunidades cristãs perfeitas – apesar do modelo que os Actos dos Apóstolos traçam da comunidade de Jerusalém – e como foi sempre um desafio e um caminho o discernimento do que, na diversidade de dons e de perspectivas, era o essencial. Sobretudo, quando estava em causa a verdade do anúncio e do testemunho do Evangelho. Paulo não cessará de o reafirmar, até nos confrontos difíceis que tem com Pedro ou com Tiago, o líder da comunidade de Jerusalém.

Vêm todas estas considerações a propósito de mais um Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, que acabámos de celebrar entre 18 e 25 de Janeiro, e o carácter cada vez mais ecuménico que assume também o cuidado pela casa comum. É já um lugar comum, mas importa não o esquecer, que esta dimensão surgiu de forma precoce sobretudo entre as Igrejas cristãs pertencentes ao Conselho Mundial de Igrejas. Da sua VI Assembleia, celebrada em Vancouver em 1983, veio o apelo dirigido às Igrejas, no sentido de realizarem em conjunto um «processo conciliar de aliança mútua a favor da justiça, da paz e da integridade da criação». Em 1989, a questão integrava explicitamente o tema da I Assembleia Ecuménica Europeia, celebrada na cidade Suíça de Basileia: «Paz com Justiça para toda a Criação». O tema continuaria nas agendas das outras duas assembleias ecuménicas europeia, celebradas respectivamente em Graaz, Áustria (1997) e Sibiú, Roménia (2007). Um documento importante, mas que passou muito desapercebido, a Charta Oecumenica para a Europa, assinada a 22 de Abril de 2001 pelos Presidentes da Conferência das Igrejas Europeias (KEK) e do Conselho das Conferências Episcopais Portuguesas (CCEE), assumia entre os caminhos de aprofundamento e de colaboração ecuménicos, no seu ponto 9, a urgência de «Salvaguardar a Criação». Já aí se apontava a urgência de uma conversão de estilos de vida e a uma articulação das Igrejas na salvaguarda da criação, propondo-se mesmo a instituição de um dia ecuménico de oração dedicado em torno deste cuidado pela casa comum.

A iniciativa partiria, já em 1989, do patriarca Dimitrios I, que instituira, para o mundo ortodoxo, o dia 1 de Setembro como dia de oração pela Criação. A iniciativa seria acolhida pelo Conselho Mundial das Igrejas, que o estendeu até ao dia 4 de Outubro, festa litúrgica de S. Francisco de Assis, propondo-o como um Tempo da Criação. O papa Francisco viria depois a assumir a adesão da Igreja Católica a esta iniciativa, dedicando uma importantíssima encíclica à questão da ecologia integral em 2015 (Laudato si’) e prolongando-a na Querida Amazónia e na Fratelli tutti, ambas de 2020. Aí se consagrava a indispensável e umbilical ligação, também presente em muitas declarações ecuménicas, entre o “grito da Terra” e o “grito dos pobres”. A questão já não era nem podia ser confessional: afectando a todos, atentava contra a obra criadora de Deus e o seu projecto de fazer deste mundo uma casa comum, onde a humanidade pudesse viver de modo fraterno, na justiça e na paz.

Ao mesmo tempo, multiplicaram-se as iniciativas, muitas delas de cariz ecuménico ou abertas ao diálogo com outras tradições cristãs: os Green Anglicans, a Église Verte, A ROCHA e a Eco-Church (Igrejas Evangélicas), a REDE Cuidar da Casa Comum. No ano transacto, a 12 de Junho, foi assinado entre nós o Memorando de Entendimento “Eco-Igrejas Portugal”, integrando a ROCHA, o Conselho Português de Igrejas Cristãs (COPIC), a Aliança Evangélica, a Conferência Episcopal Portuguesa e a REDE Cuidar da Casa Comum. Quase três meses depois, a 7 de Setembro, nas vésperas da COP26, em Glasgow, o Papa Francisco, juntamente com o Patriarca Bartolomeu I e o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, assinavam uma mensagem conjunta apelando à urgência da protecção da criação e ao imperativo da cooperação, desde logo entre os cristãos e destes com todos os homens e mulheres de boa vontade.

Se a questão da ecologia integral e do cuidado pela casa comum entrou definitivamente na agenda das diversas Igrejas, ela assume-se hoje como um caminho privilegiado de colaboração e trabalho comuns. Todos temos consciência de que a fé comum num Deus criador, que, na bela expressão do livro do Génesis, se extasia com o que sai das suas mãos (“E viu que tudo era muito bom!”) e que faz do par humano imagem e semelhança de si mesmo, na sua dignidade fundamental e na sua vocação para a plenitude da vida e da relação, nos obriga a lutar juntos e a velar pela casa comum e pelos que nela habitam. Longe das antigas lógicas da exploração e da posse com que se liam estes textos, percebemos hoje como as Escrituras nos impelem a mudar as nossas vidas, a forma como usamos os recursos da terra ou estruturamos as nossas sociedades, as relações económicas e as nossas políticas. Relembram-nos também as Escrituras como este Deus criador é também o Deus que escuta o clamor dos pobres e que se reconhece nos mais pequenos, chamando à misericórdia e à compaixão. No fundo, o apelo, tal como Paulo relembra aos cristãos de Corinto, é o do regresso ao essencial, ao discernimento lúcido e consequente dos sinais dos tempos, ao caminho do amor como aquele que mais nos configura com o próprio Deus revelado em Jesus. E para que este amor seja sério e levado a sério, é preciso que superemos as divisões para aprendermos a ir ao encontro uns dos outros: na partilha dos dons, na vivência da diferença na caridade. Só assim a Igreja poderá surgir plenamente como um sinal, um sacramento de reconciliação, de humanidade e de paz.

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