A opção preferencial pelos pobres e a radicalidade do Evangelho
Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.
Mt 5,3


Sónia Monteiro
09 de setembro de 2026
Estima-se que 826 milhões de pessoas (1 pessoa em cada 10) vivem em extrema pobreza. A desigualdade tem crescido aceleradamente: o Relatório Mundial da Desigualdade de 2026 refere que os 10% mais ricos do mundo concentram mais rendimento do que os restantes 90%. Portugal continua a ser um país com cerca 1,7 milhões de pessoas em situação de pobreza e exclusão social e com muitas famílias em circunstâncias vulneráveis, com rendimentos baixos para fazer face ao custo médio de vida. Tem-se verificado, igualmente, um aumento da população em situação de sem-abrigo (1). E, recentemente, um antigo problema que parecia ultrapassado–as barracas– tem ressurgido. Enquanto cristãos, confrontados pela procura de sinais vivos da presença de Deus e de esperança no meio de uma realidade de injustiça, somos interpelados pela pergunta: Como é possível dizer aos pobres que Deus os ama quando são forçados a viver em condições que dão corpo à própria negação do amor?
A primeira exortação apostólica do Papa Leão XIV–Dilexi te– vem recordar-nos que, à luz do Evangelho, as comunidades cristãs não podem permanecer indiferentes à situação de pobreza e opressão em que vive grande parte da população e não podem resignar-se a encarar a pobreza como um fatalismo inevitável de que “os pobres sempre os tereis convosco.” Ser pobre não pode ser identificado com a vontade de Deus. “Para nós, cristãos, a questão dos pobres remete-nos à essência da nossa fé.” (110) Gustavo Gutiérrez, uma figura incontornável na história da Igreja e conhecido como o “pai” da teologia da libertação na América Latina, dedicou grande parte da sua vida à promoção de uma consciência social e eclesial que coloca os pobres no centro.
A este respeito, Gutiérrez distingue três tipos de pobreza: material, espiritual e evangélica.(2) A pobreza material refere-se a condições sub-humanas e desumanizantes, nomeadamente a falta de acesso a bens sociais, culturais, económicos e políticos essenciais. Na Bíblia Hebraica, os pobres são representados pelo órfão, pela viúva e pelo estrangeiro. Para Clara Bingemer, “do ponto de vista bíblico, os pobres são aqueles que estão curvados, abatidos, humilhados, ignorados e desprezados pela sociedade.”(3) Os pobres mais do que uma categoria ou classe social, são pessoas reais, com rostos concretos, que vivem em condições degradantes, muitas vezes esquecidos, ignorados e marginalizados. Muitos vivem ao nosso lado, cruzam-se connosco nas ruas. Para as teologias da libertação, a pobreza material é um pecado estrutural e social ao qual a Igreja, na sua missão, e a sociedade, nas suas diferentes formas de organização, não podem permanecer indiferentes.
A pobreza espiritual, por sua vez, não tem primeiramente que ver com uma indiferença diante das coisas que se possui, para daí se concluir que o pobre em espírito é aquele que não está preso às coisas, mesmo sendo proprietário delas. Para Gutiérrez, o pobre em espírito (anaw) da primeira bem-aventurança de Mateus (Mt 5,3) refere-se, no contexto da tradição judaico-cristã, a uma atitude mais profunda diante de Deus, radicada numa total abertura e confiança em Deus e, por isso, negando qualquer forma de auto-suficiência. Esta atitude mais profunda vai mais longe que um simples desapego diante dos bens, afectando todo um estilo de vida, o modo como escolhemos viver e o que escolhemos possuir ou não.
Por último, Gutiérrez fala-nos de um terceiro tipo de pobreza: a pobreza evangélica. Esta refere-se a uma ética cristã e a uma vida espiritual que, diante da realidade da pobreza material, conduz necessariamente à solidariedade. Uma solidariedade que não se reduz a uma generosidade pontual (que tem o seu lugar!), onde os pobres permanecem (ainda) como objeto da nossa esmola mas a uma solidariedade que se assume como um compromisso pessoal e social discernido, onde condições são criadas para que os mais pobres possam ser sujeitos da sua própria transformação.
O que significa, então, dizer que na matriz da acção cristã encontra-se uma opção preferencial pelos pobres? A palavra “opção” não significa que, à luz do Evangelho, posso ou não optar por esta solidariedade, como se as duas vias tivessem o mesmo sentido e valor evangélico. O Evangelho é claro na sua radicalidade: esta opção refere-se à responsabilidade de uma escolha discernida que se assume como um compromisso. Simultaneamente, importa esclarecer que esta opção não exclui ou opõe uns contra os outro. Não se trata de uma luta entre pobres e não pobres por um lugar de destaque. Trata-se, antes, de uma escolha que procura tomar uma posição diante de uma realidade injusta, dando prioridade aos mais pobres e vulneráveis nas escolhas e ações da Igreja e, nessa opção, convidar todos a uma conversão de vida e a uma humanização de toda a sociedade. Na verdade, a escolha preferencial pelos pobres é uma escolha pelo Reino de Deus, sem excluídos, descartados ou marginalizados.
