A fraqueza das reações

A continuidade do mundo em que vivemos está comprometida. Terei eu consciência de que sou responsável por denunciar os comportamentos, atitudes e iniciativas que mascaram a falsa preocupação com as alterações climáticas?

A fraqueza das reações
Mafalda Guia
19 de janeiro de 2022

O ano de 2021 ficou marcado por recordes climáticos. Recorde da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera, consumo desenfreado (motivado pela Covid-19) de equipamentos de proteção individual, como luvas e máscaras, de embalagens e também de recipientes de plástico para 'take-away', com impacto ambiental desastroso, fenómenos extremos como ondas de calor, tempestades, furacões, inundações e incêndios, que deixaram um rasto de destruição por onde passaram, bem como levaram à morte de inúmeras pessoas. Com a viragem do ano desejamos que o próximo seja melhor, mas infelizmente as notícias são pouco animadoras no que diz respeito ao clima. A Organização Meteorológica Mundial indica que os desastres climáticos estão a atingir o mundo quatro a cinco vezes mais e a causar sete vezes mais danos do que na década de 1970, situação que continuará a escalar, caso nada seja feito.

2021 também ficou marcado pela realização da COP26, a Conferência das Partes (COP, na sigla em inglês) das Nações Unidas, que reuniu perto de 200 países em Glasgow, na Escócia, em novembro, para discutir o combate à crise climática. Dadas as circunstâncias, esta conferência assumiu uma importância sem precedentes, mas que acabou por ser defraudada. A reação aos resultados da Conferência foi consensual: tanto cientistas como ativistas classificaram como insuficientes e inadequados os passos dados para responder à crise climática. Esta situação deve deixar-nos preocupados e deve motivar, de modo particular, cada um de nós, e de forma geral, a sociedade, à ação e ao dever de dar voz, através das nossas ações, de que é preciso mudar. Empresas, governos, organizações, instituições e demais entidades: todos são chamados à ação imediata, objetiva e muito concreta no combate às alterações climáticas.

Muitos de nós, atentos à emergência climática, já iniciaram o seu caminho: procuram mais informações sobre o problema, estão atentos às notícias, alteram os seus hábitos de consumo, mudam o seu estilo de vida, participam ativamente em fóruns de discussão sobre o tema, integram organizações que lutam contra a crise climática e, consequentemente, criam as suas opiniões e ganham sensibilidade para perceber o que está mal, o que tem de mudar, o que está a ser bem feito, assim como o que é feito, mas não da forma correta. E é neste último ponto que gostaria de destacar um conceito, que não é novo (o mesmo foi cunhado em 1986 pelo ambientalista norte-americano Jay Westerveld), mas que está mais atual do que nunca (pelos piores motivos) e que reflete muito bem aquilo que o Papa Francisco nos diz na sua Encíclica Laudato si’: “(…) ao mesmo tempo cresce uma ecologia superficial ou aparente que consolida um certo torpor e uma alegre irresponsabilidade”. Greenwashing (em português, “lavagem verde”) é o termo que se refere ao “uso de técnicas de marketing e publicidade para promover uma imagem positiva de responsabilidade ambiental, por parte de governos, empresas ou ONG, que assim procuram esconder ou desviar as atenções dos impactos ambientais negativos por si criados; não implica necessariamente a revelação de dados falsos, mas quase sempre inclui a ocultação de outros impactos negativos associados às medidas/comportamentos, podendo ainda tomar a forma de alegações não provadas ou propositadamente difusas”(1).

Este é mais um problema que a nossa sociedade enfrenta: as falsas medidas para o combate às alterações climáticas e a publicidade sobre as mesmas precisam de ser denunciadas. Situações como (i) empresas que vendem energia oriunda de combustíveis fósseis e que anunciam nas suas campanhas estarem a trabalhar e a desenvolver investigação sobre energia renovável, mas que nunca deixam de usar a energia que causa maior impacto ambiental; (ii) cadeias de hotéis que se assumem amigas do ambiente porque não trocam as toalhas dos quartos todos os dias mas que, na verdade, no seu back office fazem muito pouco para poupar água ou economizar energia; (iii) entidades bancárias que consomem energia desmesuradamente nos seus edifícios de serviços mas que, a dada altura, anunciam que vão plantar árvores, associando-se a uma ONG para ajudar na diminuição das emissões de CO2; (iv) empresas que se assumem pelas suas boas práticas ambientais, utilizando materiais reciclados e disponibilizando a informação ambiental sobre os produtos que vendem, mas que implementam as suas fábricas em espaços considerados como reserva natural; ou ainda (v) empresas que utilizam linguagem muito vaga como “eco friendly”, “socialmente responsável” ou “amigo do ambiente”, sem qualquer justificação. Parecem-lhe familiares todas estas situações? Certamente que sim e, infelizmente, muitos outros exemplos existirão.

A pergunta que se impõem é: qual o motivo que leva as organizações a serem irresponsáveis a este ponto? Penso que o Papa Francisco tem a resposta certa para nos dar: “entretanto os poderes económicos continuam a justificar o sistema mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente. Assim se manifesta como estão intimamente ligadas a degradação ambiental e a degradação humana e ética” (Encíclica Laudato si).

De facto, é extremamente desapontante perceber como a urgência climática que vivemos pode ser fonte de negócio para tantas empresas, que mascaram as suas ações para benefício próprio. Cabe a nós estar informados, atentos aos sinais e denunciar as situações de greenwashing, porque, como diz o Papa Francisco na sua mensagem aquando do lançamento da Plataforma de Ação Laudato si’, “Há esperança. Todos podemos colaborar, cada um com a própria cultura e experiência, cada um com as próprias iniciativas e capacidades, para que a nossa mãe Terra retorne à sua beleza original e a criação volte a brilhar novamente segundo o plano de Deus”.

Mesa Redonda
Missão onlife:
Cultura
Sociedade
Casa Comum
Missão