A beleza que salva o mundo

A beleza que salva o mundo é o amor que partilha a dor. Desta beleza somos chamados a ser instrumentos e testemunhas: a beleza do amor que irradia luz nas trevas, que sara as feridas provocadas pela violência e pelo ódio.

A beleza que salva o mundo
Frei Fabrizio Bordin, franciscano conventual
23 de março de 2022

Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas: uma para Ti,
outra para Moisés e outra para Elias.
Lc 9, 33

Quantas vezes ouvimos, lemos e meditamos esta página do Evangelho [Lc 9, 28-36]. É-nos proposta todos os anos no II domingo da Quaresma e na festa da Transfiguração a 6 de agosto. Jesus, a caminho de Jerusalém, alerta várias vezes os seus discípulos para que o seu destino é dramático, será perseguido até à morte e no terceiro dia ressuscitará. As palavras perseguição, sofrimento, morte deixam os apóstolos confusos e perdidos. Eis então, este momento de luz e de beleza no monte Tabor. Jesus luminoso, radiante, glorioso, bonito. É uma pregustação da Ressurreição.
Por isso Pedro, que pouco antes tinha adormecido, desperta e diz: «Que bom, que bonito, estarmos aqui. Façamos três tendas, uma para ti, uma para Elias e uma para Moisés». Debrucei-me sobre esta frase de Pedro. E quero partilhar convosco a minha reflexão sobre duas palavras: Beleza («que bom estarmos aqui!») e Tenda («façamos três tendas»).
Beleza.

Há um romance de um escritor russo. Sim, vou mesmo citar um escritor russo, Dostoievski, no seu romance O idiota, no qual coloca nos lábios do ateu Ippolit a seguinte pergunta dirigida ao príncipe Michkin: «É verdade príncipe, que tu disseste um dia que o mundo será salvo pela “beleza”? Senhores – gritou alto para todos – o príncipe afirma que o mundo será salvo pela beleza…». E olhando, novamente para o príncipe perguntou: «Que beleza salvará o mundo?» O príncipe não respondeu à pergunta (como um dia o Nazareno diante de Pilatos tinha ficado calado, respondendo apenas com a Sua presença à pergunta “O que é a verdade?” – Jo 19,38).

O príncipe Michkin permanece em silêncio, mas fala a sua atitude: permanece ao lado de um jovem de 18 anos que está a morrer de tuberculose, com uma infinita compaixão de amor. Eis a mensagem dada a Ippolit: «a beleza que salva o mundo é o amor que partilha a dor». É a beleza do amor gratuito; é a beleza da proximidade, é a beleza do estar ao lado de quem sofre uma dor absurda. Esta beleza da caridade salva o mundo.

Fui buscar estes apontamentos do último retiro que fiz aos jovens há dois anos. Era um fim-de-semana, 8 e 9 de março de 2020, no II domingo da Quaresma. Logo a seguir, começou o grande confinamento por causa da pandemia. Passaram dois anos e esta página do evangelho, volta com mais força: qual é a beleza que pode salvar o mundo? É a beleza de quem dá a vida como Cristo, “por amor”. É a beleza do pastor belo desfigurado na cruz, transfigurado no Tabor e glorificado na Ressurreição.
Desta beleza somos chamados a ser instrumentos e testemunhas: a beleza do amor que irradia luz nas trevas, que sara as feridas provocadas pela violência e pelo ódio. Jesus no Tabor irradia o amor do Pai sobre a humanidade.

Por isso, Pedro, assombrado pela beleza do amor que dá a vida, quer fazer três tendas no cimo do Tabor. Mas as tendas não podem ser colocadas no cimo do monte, longe da realidade, fora do mundo, mas sim dentro dos desafios da planície, no sopé da montanha onde vivemos a luta de cada dia. O que podem representar, para nós, estas três tendas e neste momento histórico marcado pela pandemia, pela guerra na Ucrânia e tantas outras guerras silenciadas? O que significa, para nós, armar a tenda para Elias, Moisés e Jesus?

1. A tenda de Elias. Elias é considerado, no Antigo Testamento, como o maior dos profetas. A tenda para Elias, significa cultivar sonhos e utopias de paz. Significa levantar os olhos ao céu, como Abrão, e contemplar a imensidão das estrelas e cultivar a esperança de que o Senhor não abandona os seus filhos. Significa lutar pela paz com as armas da oração, como fez Elias, sozinho, contra os quatrocentos profetas de Baal!

2. A tenda de Moisés. Moisés foi o maior líder e legislador do povo de Israel, um homem pragmático, que mal sabia falar, mas muito prático e solidário. Significa, para nós, arregaçar as mangas neste momento, com a fantasia da caridade e da solidariedade, procurando não fazer todos a mesma coisa. Recolhemos roupa, comida e medicamentos, mas agora temos que armazenar outros produtos importantes para acolher quem vem de longe e quem vive ao nosso lado: precisamos de casas, tempo para o ensino, cuidados de saúde física, psicológica e espiritual.

3. Por fim, temos a tenda de Jesus. Que significa esta tenda? Significa colocar o Evangelho no centro da nossa vida pessoal e comunitária. Significa carregar o peso das cruzes do nosso tempo com a certeza de que Jesus será o nosso Cireneu. Ter a esperança de que a última palavra é a da ressurreição, no meio da destruição e da morte.

Uma criança que foi batizada recentemente, perguntou-me na véspera se Putin foi batizado. E acrescentou: «Temos de rezar pelos ucranianos, mas também pelo Putin, para que acabe com esta guerra!» De manhã tinha lido o evangelho em que Jesus dizia: «Amai os vossos inimigos. Rezai por aqueles que vos perseguem!…» Eu andei às voltas para explicar as palavras de Jesus. Este menino foi direto e claro.

Irmãos: somos chamados a erguer tendas nas nossas cidade e aldeias: a tenda dos sonhos e da utopia; a tenda da solidariedade e do acolhimento; a tenda do pastor belo que acolhe o seu rebanho, um pequeno acampamento – a Igreja “hospital de campanha” – onde é possível contemplar a beleza que salva o mundo, que é o amor que partilha a dor.

No exercício do cuidado da casa comum a que todos somos convocados enquanto membros de uma única humanidade e enquanto cristãos, no meio de acontecimentos que não podem deixar de nos interpelar e desinstalar, estas são as tendas que não podemos, não queremos, deixar de levantar.

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