Mulher com a Bíblia

REFLEXÃO DOMINICAL

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

Ser terra de Deus. Ser terra sagrada

Nélio.jpeg

 

Nélio Pita

Padre Vicentino

Para muitos de nós, o verão está fortemente associado a férias. Infelizmente, este ano, o gozo do tempo de descanso está naturalmente condicionado pela temática COVID-19. Não temos outro remédio se não aceitar as medidas em vigor para não sermos apanhados nas garras deste vírus, nem sermos causa de contágio para os outros. 

 

Mas o tempo quente é também a época propícia para o amadurecimento de uma gama variada de produtos agrícolas, alguns dos quais semeados com trabalho árduo, nos meses de inverno. As longas planícies do Ribatejo, a extensa terra ondulada do Alentejo, as pequenas áreas, os poios, nos socalcos da Madeira ou as verdejantes vinhas das encostas no Norte, testemunham o esforço de muitos agricultores do nosso país. Como consumidores, devemos dar graças a Deus e rezar por eles, para que o Senhor os ajude em tempos de fracas colheitas. 
Neste tempo quente ouvimos, de novo, a parábola do semeador apresentada por Jesus. Através dela, S. Mateus procura dizer aos homens de todos os tempos o modo como o Reino de Deus se torna realmente presente. Qual é o primeiro passo para que a realidade divina assuma forma humana? Qual é a lição que esta pequena história nos quer transmitir? 

 

Em primeiro lugar constatamos a atitude generosa do semeador que espalha indiscriminadamente as sementes, inclusive em lugares pouco prováveis para o sucesso da sementeira, como as zonas áridas e rochosas. A semente da Palavra é oferecida a todos sem exceção e não apenas àqueles que à partida garantem mais frutos. Todos! Por vezes, é nos lugares improváveis que a semente divina é acolhida com entusiasmo, absorvida e cuidada e, por isso, capaz de frutificar abundantemente. Não é raro acontecer que os terrenos classificados pelo olhar limitado do avaliador inteligente como inapropriados se tornem naqueles que mais produzem aos olhos de Deus. 

 

Mas a qualidade do terreno é determinante para o resultado. O Senhor refere quatro tipos de terrenos. Recordemo-los sucintamente. Procuremos analisar que tipo de terra somos? Quais os entraves para que a semente da Palavra de Deus não cresça e produza fruto em nós?

A terra árida à beira do caminho que é incapaz de absorver a semente representa aquele que não entende a mensagem. Ouve a palavra, mas não se interessa, não deixa que ela ganhe raízes no seu terreno, mantém-se à distância, é indiferente. Uma visão estritamente materialista que nega qualquer abordagem com referência ao divino, é um exemplo claro deste tipo de terra. Os sistemas políticos que por norma excluem a dimensão transcendental, habitualmente também recusam a vocação divina do homem. Por isso, tendem a ser ditaduras de pensamento único, não admitindo expressões culturais divergentes. 

 

Aqueles que recebem a semente em sítios pedregosos, diz o Senhor, são aqueles que acolhem a Palavra com alegria, mas rapidamente esmorecem e desistem. Como padre, conheço bem estes casos: são irmãos cheios de entusiasmo e muito motivados num fim de um retiro ou de uma experiência missionária ou ainda logo após a receção do sacramento do Crisma. Pouco depois, quando percebem as exigências diárias do seguimento de Jesus, as implicações concretas do batismo, quando são questionados e criticados por familiares e amigos, recuam para uma zona de conforto e desistem. Por vezes, concluem este processo com justificações através das quais culpabilizam os outros. Na realidade, são incapazes de admitir a fraqueza enquanto discípulos de Jesus. 

 

Há também aqueles cujas condições se assemelham a terrenos cheios de espinhos. O contexto adverso, diz o Senhor, são «os cuidados deste mundo e a sedução das riquezas». Dito de outro modo, aqueles que têm uma agenda sempre cheia, que vivem numa ansiedade permanente e fazem do dia a dia uma luta obsessiva motivada pela preocupação de ter cada vez mais, esses são sufocados de tal modo por tão grandes espinhos que a Palavra, como uma semente, não chega a crescer e a dar fruto. Estes são pobres porque escravos da sedução destes mundos.  

Finalmente, a boa terra é aquela que acolhe a Palavra, a entente e produz muito fruto. Sendo variável, o resultado é muitíssimo generoso quando comparado com o investimento feito: «ora cem, ora sessenta, ora trinta por um». Pensemos em homens e mulheres que ao longo da história acolheram e compreenderam a Palavra. Lembremos, como exemplo, S. Bento, S. Tomás de Aquino, Sta. Isabel de Portugal, Sta. Rita de Cássia ou S. Vicente de Paulo. Já passaram tantos anos, mas ainda hoje beneficiamos dos frutos extraordinários que eles, como terra santa, ofereceram à Igreja e ao mundo. Ainda hoje, os seus textos são lidos e as suas ações são evocadas como modelos para o agir cristão. Continuam a ser, de facto, árvores de abundante fruto sempre ao nosso alcance.

 

Ser terra de Deus. Ser terra sagrada. Ser lugar onde as divinas sementes crescem e dão fruto. Esta é a nossa vocação enquanto batizados. Só assim, o Reino de Deus se torna uma presença neste mundo. Recordemos, no entanto, que o divino semeador nunca nos obriga a acolher a sua Palavra mas antes a propõe constantemente. Ele respeita a liberdade humana, até nas circunstâncias mais extremas, quando as sementes do mal - do mal em estado puro - crescem no coração do homem. Infelizmente, fecundados por essas sementes, a sede de destruição é difícil de saciar. Ele também não nos impede de acolher as sementes estéreis que aumentam o vazio no coração do homem. A procura ávida de uma satisfação é um sintoma revelador da má qualidade da semente que nos habita. No tempo em que vivemos, há tantas sementes de péssima qualidade lançadas diariamente pelos meios audiovisuais… 

 

Irmãos, somos feitos de palavras. De muitas e variadas palavras. De muitas e variadas sementes. Precisamos de ser constantemente revisitados pelo divino semeador para que a sua Palavra predomine e faça crescer em nós a obra de Deus. Cuidemos da nossa terra. Façamos a nossa parte, como empenhados agricultores. Se agirmos como agricultores diligentes em acolher as sementes da Palavra de Deus, os bons frutos hão de surgir. 
Pe. Nélio Pita, CM

 

Voltar a Reflexão Dominical Ano A | Ano B | Ano C

SOBRE NÓS

S. Vicente de Paulo, o santo da Caridade, é o fundador da Congregação da Missão. Presentes em todo o mundo, estamos em Portugal desde 1717. Talvez nos conheça como Padres Vicentinos, Lazaristas ou Padres da Missão.

LOCALIZAÇÃO

(+351) 213 422 102 | 217 263 370

 

Estrada da Luz, 112-1º

1600 - 162 Lisboa

 

comunicacaoppcm@gmail.com 

CONTACTE-NOS
  • Facebook
  • Instagram
  • YouTube
APONTADORES

© 2020 por Província Portuguesa da Congregação da Missão.