Mulher com a Bíblia

REFLEXÃO DOMINICAL

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

Descanso de Deus não é uma sesta interminável

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João

Soares

Padre Vicentino

Sempre que leio a frase «vinde a Mim vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei» fico com a dúvida se quem me escuta não chegará a conclusão de que a felicidade consiste em descansar.  Claro que consiste em descansar da dor, da angústia, das incertezas deste mundo, dos nervos que temos, mas… tem de consistir em muito mais. Acho que para alguns não crentes o que os preocupa no céu é que possa ser um local bastante aborrecido. 

 

Não deixa de ser curioso comprovar quantos homens consideram que a maior felicidade é o facto de não ter nada para fazer. Muitos pensam: «no dia em que eu ganhar o Euromilhões acaba-se ‘isto de trabalhar’». A partir de aí a vida será uma sesta perpétua. Entende-se – claro – que muita gente aspire abandonar certos trabalhos de que não gostam, horários complexos, fazer certas coisas contrariado, aceitar certos chefes. Mas daí a pensar que a felicidade seja a ociosidade… Isso apenas se entende a partir da ótica de uma civilização que passa as horas fazendo aquilo que não ama.  
É triste entender a felicidade como um vazio. Impressiona muito aquele tipo de pessoas que estão convencidas de que quando se reformarem, porque se desvincularão das suas rotinas laborais, a sua vida ficará oca.  Será que não têm nenhum desejo que não sonham realizar?  Será que a alma desta gente é tão pequena que se sentiu apenas saciada num trabalho material que lhes deu apenas a ilusão de viver? Será que não descobriram outras mil formas de serem úteis, além do trabalho? 

 

Vivemos no mundo onde ser alguém é ter um emprego, é produzir coisas, esquecemo-nos de que a vida vale mais do que isso. Até nós, sacerdotes, muitas vezes confundimos as pessoas explicando-lhes que Deus deixou de criar ao sexto dia e no sétimo – quando não fez outra coisa senão amar – já não seguiu criando nada. 
É curioso que o Evangelho não promete a ninguém “o descanso eterno”, mas a “vida eterna”, e uma vida eterna não pode ser uma sesta interminável. 
O segredo desta vida é o próprio Evangelho. Quem o diz é Jesus, ao pedir a cada um de nós que O sigamos, sem nos tirar as dificuldades da vida nem os jugos que ela contém. Apenas nos diz que, se a nossa vida for com e como Ele, os jugos e as cargas da vida serão leves, suportáveis. Por outras palavras, terão um sentido.  

 

No contexto pandémico em que nos encontramos, em que muitos de nós já se encontram cansados e oprimidos, este texto torna-se vida para nós. Quantos de nós sentimos que a sua vida perdeu sentido? Quantos de nós nos encontramos cansados deste jugo? 
Está na hora de descansar de tudo aquilo que nos inquieta e preocupa. De tudo aquilo que nos oprime.  De tudo aquilo que não está bem na nossa vida. Algo que esta pandemia nos deve ensinar é em focarmo-nos no essencial. É em Jesus que encontramos o essencial da vida: Amar. Ele não aponta para coisas, nem nos ensina coisas. Apenas diz “vinde a mim e aprendei de mim”. É a própria vida de Jesus que se torna modelo para nós. 
Passados 2000 anos, os homens ainda continuam com cargas demasiado grandes uns sobre os outros. A exploração do irmão, as explorações morais, legalistas e rigoristas continuam a ser jugos demasiado grandes e muitas vezes insuportáveis.  Não é que Jesus queira negar as exigências éticas da aliança com Deus, mas a verdade de Deus faz-se com misericórdia, com sentimentos de compaixão, porque nunca se separa a verdade da caridade. Este equilíbrio é difícil, mas Jesus conseguiu mostrar-se sempre manso e, ao mesmo tempo, mestre dos outros.  Sem colocar cargas insuportáveis, sem alimentar um olhar cínico e duro diante dos pecadores. 


Paradoxalmente, pode dizer-se que o descansar em Deus dá trabalho. Se entendermos o descanso como a realização plena da nossa vida, então podemos fazermos uso daquele belo ditado: «escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar».  Com Deus é exatamente igual: se formos mansos e humildes de coração, nunca estaremos cansados e oprimidos. Sempre amando mais, o jugo tornar-se-á mais leve. 
Se fosse feito um inquérito sobre o amor, creio que nunca ninguém responderia que amar cansa e oprime. É isto que Jesus no oferece: Amor. Um amor que não cansa nem oprime, mas que liberta e fortalece. 

 

Façamo-nos um ato de pequenez, desta pequenez que permite conhecer o tesouro de Deus. Que permite encontrar a docilidade necessária para aprender de Jesus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. É na humildade da pequenez que encontraremos o necessário para compreender este amor de Deus que alivia e salva. E não nos esqueçamos que este alívio não é uma sesta interminável, mas um trabalho que sacia e que nos preenche. 

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