CESSAÇÃO DOS SERVIÇOS MISSIONÁRIOS NA DIOCESE DE SANTARÉM

Pe. Fernando Soares, CM

03 de julho de 2021

No último ano e meio, as profundíssimas condicionantes provocadas pela pandemia nos “recursos humanos” da PPCM e paróquias e, ainda na pastoral em geral, conduziram o diálogo entre o Sr. Bispo, D. José Traquina e o Visitador da PPCM, P. Nélio Pita. Do resultado desse diálogo, concluiu-se pela não permanência em Salvaterra de Magos, bem como na diocese de Santarém.

Não sou daqui nem dali, mas de qualquer lugar onde Deus quer que eu esteja! (São Vicente de Paulo)

A frase de São Vicente de Paulo que encabeça este texto, revela o espírito com que, desde o seu início animou este Instituto Missionário. Desde há mais de quatro séculos e nas mais variadas geografias do mundo procuramos dar corpo às palavras do Senhor: «enviou-me a anunciar a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4, 18). Entre a «Evangelização» e os «pobres» está, não só a nossa identidade, como a linha do nosso diálogo com as instituições da Igreja.

Por vontade do nosso fundador, somos comunidades para a missão. Estas são a face mais visível da nossa atividade missionária concretizada na espiritualidade das virtudes de humildade, simplicidade, mansidão, mortificação e zelo apostólico. E este deve revelar-se, como nos diz o Papa Francisco, na disponibilidade permanente para “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20).

Em Portugal, missionamos desde 1717. Vivemos vários períodos ao longo destes três séculos. Em cada momento, a «Providência» sempre se encarregou de iluminar os responsáveis provinciais tomando as decisões mais capazes de responder aos desafios de cada contexto interno e externo.

Nos últimos 50 anos, com o regresso de muitos dos missionários que estavam em Moçambique, o nosso serviço tem passado pela formação do clero (nomeadamente os missionários próprios); a realização de Missões Populares, nomeadamente, nas Dioceses do sul e interior de Portugal; assistência espiritual nas capelanias hospitalares; no acompanhamento de movimentos laicais, nomeadamente os ligados à Família Vicentina e no serviço paroquial em várias Dioceses.

Foi precisamente neste contexto e aquando da criação da Diocese de Santarém que o seu primeiro bispo, D. António Francisco Marques, em função da escassez de sacerdotes para as paróquias que constituíam a nova Diocese, endereçou, aos responsáveis da Província Portuguesa da Congregação da Missão (PPCM), o convite para poderem assumir o cuidado pastoral de algumas paróquias. Depois de aprofundado diálogo entre os responsáveis da Congregação e da Diocese, e definidos os objetivos e parâmetros desta colaboração, em fevereiro de 1976, começava a instalar-se, numa vivenda arrendada, em Marinhais, a primeira comunidade da PPCM, sendo-lhe, também, confiado o cuidado pastoral das paróquias de São Miguel de Marinhais, Nossa Senhora da Glória do Ribatejo, da Imaculada Conceição de Muge, com a Capela e mais tarde paróquia de Nossa Senhora de Fátima – Granho. E, mais tarde, também as paróquias de São Paulo em Salvaterra de Magos e Imaculado Coração de Maria, nos Foros de Salvaterra.
Ao longo destes 46 anos de colaboração apostólica, serviram estas paróquias quase 30 missionários vicentinos, a sua maioria com nomeação diocesana. Além disso, na década de 1990, nas instalações da paróquia de Salvaterra de Magos (Creche Velha), funcionaram três cursos do Seminário Interno (Noviciado). E ao longo do tempo, muitas outras colaborações se realizaram, contribuindo para a constituição de uma profundíssima ligação afetiva e efetiva da PPCM com as pessoas destas comunidades cristãs.

A identidade missionária da Congregação definida por uma colaboração itinerante (cf. EG 23); a necessidade de reconfiguração interna, sublinhada na última Assembleia Provincial (2019) e assumida pelo atual governo provincial; as opções do Projeto Pastoral da Diocese para o quinquénio 2019-2025, que tem como lema: “Somos uma missão nesta terra”; e, no último ano e meio, as profundíssimas condicionantes provocadas pela pandemia nos “recursos humanos” da PPCM e paróquias e, ainda na pastoral em geral, conduziram o diálogo entre o Sr. Bispo, D. José Traquina e o Visitador da PPCM, P. Nélio Pita.

Do resultado desse diálogo, concluiu-se pela não permanência em Salvaterra de Magos, bem como na diocese de Santarém. O pedido de dispensa por parte da PPCM foi aceite pelo Sr. D. José, sendo que se mantém aberta a possibilidade de outras colaborações de acordo com o carisma, nomeadamente, através das Missões Populares e da formação do clero e dos leigos.

Neste momento, em nome da PPCM, queremos dizer ao Povo de Deus das Paróquias desta Unidade Pastoral de Salvaterra de Magos, a quem dedicadamente servimos há mais de quarenta anos, três sentimentos: gratidão, paixão com coragem e esperança.
1. GRATIDÃO. Olhamos para o passado com imensa gratidão. Estamos gratos a todas as pessoas que nos ajudaram a enriquecer a história carismática da nossa Congregação. Através da ação dos missionários, o Senhor foi chamando vários leigos para seguimento Cristo, em espírito de corresponsabilidade, traduzindo o Evangelho em vida e na capacidade de ler, com os olhos da fé, os sinais dos tempos.
Olhamos para o passado e descobrimos também incoerências e incompreensões, fruto da fraqueza humana. Por elas pedimos perdão e confiamos que até isso pode ser instrutivo, se se transformar em verdadeiro e sincero apelo à conversão.

2. PAIXÃO com CORAGEM. Abraçamos com coragem e paixão o presente. A fidelidade à missão e a leitura dos “sinais dos tempos”, e como nos diz constantemente o Papa Francisco, obrigam-nos a questionar o que estamos a fazer e a sonhar mais alto . Obrigam-nos a fazer a pergunta sobre os serviços que estamos a conseguir prestar e as obras que queremos manter. Obrigam-nos a fazer a pergunta sobre os recursos humanos de que dispomos e sobre os meios que podemos continuar a utilizar.
Olhamos para o presente e percebemos que vivemos numa sociedade muito polarizada, marcada pelo conflito e pela difícil convivência intergeracional e diversidade de culturas, onde a prepotência sobre os mais fracos e as desigualdades se vão acentuando; numa sociedade marcada pelo individualismo, a autoafirmação e a indiferença.
Ora neste contexto social, sentimos que somos chamados a oferecer modelos proféticos e concretos de vida comunitária que contrariem essa polarização e segregacionismo. Comunidades onde vivam homens felizes, consagrados ao Senhor e «peritos em comunhão». Por isso, e por mais que nos custe, não podemos continuar a aceitar todas as propostas que nos apresentam, sobretudo, áreas pastorais que nos obriguem, pela sua dispersão humana e geográfica, à resignação a uma pastoral desgarrada e de simples manutenção.

3. ESPERANÇA. Como homens de fé, olhamos para a frente e vislumbramos o futuro com esperança. Pensamos conhecer as dificuldades que a PPCM e a Igreja em geral, enfrentam neste momento particular da história: a falta e envelhecimento dos padres e das vocações missionárias, os problemas económicos e as desigualdades sociais agravadas pelas graves crises dos últimos anos, os desafios da globalização, as insídias do indiferentismo e relativismo moral e religioso, a marginalização e a irrelevância social da proposta religiosa, etc…
Acreditamos, no entanto, que é precisamente nesta hora de incerteza que devemos continuar a testemunhar a esperança, fruto da fé no Senhor em quem pusemos a nossa confiança (cf. 2 Tm 1, 12) e para quem «nada é impossível» (Lc 1, 37).

Este passo que agora damos de cessação dos serviços missionários na Diocese de Santarém, não deve ser entendido como cedência à tentação dos números e da eficiência e, menos ainda, à tentação de confiar só nas nossas próprias forças.
Pelo batismo e consagração missionária, fomos revestidos de Cristo e munidos das armas da luz (Rm 13, 11-14) por isso, não desanimamos e queremos permanecer acordados e vigilantes, prosseguindo o nosso caminho com confiança no Senhor. Estamos convictos de que esta decisão pode permitir à Diocese de Santarém (nas suas paróquias) e à PPCM (nas suas comunidades) continuar a escrever uma bela história de evangelização.

Agora, o Espírito Santo impele-nos a olhar para o futuro com Esperança e conta com todos para continuar a fazer maravilhas em “favor do seu Povo”. Pedimos-vos que continuem a rezar pela Diocese de Santarém e pelo seu Bispo; e pela PPCM e pelos seus membros, para que, por eles e por todos, continue Deus a ser glorificado.
OBRIGADO E QUE O SENHOR NOS ABENÇOE