Mulher com a Bíblia

REFLEXÃO DOMINICAL

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

«Amar a Deus e ao próximo»

Luciano Ferreira

Vicentino

Prestes a encerrar o mês de Outubro dedicado a avivar a consciência missionária de todos os cristãos, ressoam ainda em nós as interpelações proféticas do domingo passado, Dia Mundial das Missões, pelas quais Deus nos chama a estar disponíveis para O servir nos nossos irmãos, ao perto ou ao longe:  “Ouvi a voz do Senhor que dizia: “quem enviarei? Eu respondi: “Eis-me aqui, envia-me”. O Senhor disse: “Vai!” (Is 6,8-9). 
Reunimo-nos também, poucos dias depois da divulgação da nova Encíclica do Papa Francisco, “Fratelli Tutti”, sobre a Fraternidade e a Amizade social, assinada dia 3 em Assis, junto ao túmulo de S. Francisco, o santo que lhe inspirou o nome e vem nutrindo constantemente a sua ação e testemunho como sucessor de Pedro.

 

Ambos os aspetos têm muito a ver com a Mensagem da Liturgia da Palavra para o presente domingo, que explica claramente, segundo o Evangelho (v.40) que “toda a Lei e os Profetas” se resumem no duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo. O que quer dizer que aí está a totalidade da revelação de Deus para os homens.

 

A originalidade deste resumo evangélico, em que Jesus se limita a citar os livros do Deuteronómio (6,5) e do Levítico (19,18), está, por um lado, no facto de os aproximar um do outro, pondo-os em perfeito paralelo; e, por outro, no facto de Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos. Portanto, o compromisso religioso (que é proposto aos crentes, quer do Antigo, quer do Novo Testamento) resume-se no amor a Deus e no amor ao próximo. Que é que isto quer dizer?

 

De acordo com os relatos evangélicos, a grande preocupação de Jesus foi discernir a vontade do Pai e cumpri-la com fidelidade e amor. "Amar a Deus" é, na perspetiva de Jesus, estar atento aos projetos do Pai e procurar concretizar, na vida do dia a dia, os seus planos. Ora, na vida de Jesus, o cumprimento da vontade do Pai passa por fazer da vida uma entrega de amor aos irmãos, se necessário até ao dom total de si mesmo.
Assim, para Jesus, "amor a Deus" e "amor aos irmãos" estão intimamente associados. São duas faces da mesma moeda. Por isso, na sua 1ª Carta, o apóstolo S. João é contundente: “quem não ama o seu irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê” (1 Jo, 4,20).
Como é que deve ser esse "amor aos irmãos"? O texto só explica que é preciso "amar o próximo como a si mesmo". As palavras "como a si mesmo" significam que é preciso amar totalmente, de todo o coração.

 

Trata-se de um amor sem limites, sem medida e que não distingue entre bons e maus, amigos e inimigos. Aliás, Lucas, ao contar este mesmo episódio que o Evangelho de hoje nos apresenta, acrescenta-lhe a história do "Bom Samaritano", explicando que esse "amor aos irmãos" pedido por Jesus é incondicional e deve atingir todo o irmão que encontrarmos nos caminhos da vida, mesmo que seja um estrangeiro ou inimigo (cf. Lc 10,25-37)

 

Já no Antigo Testamento, como refere a 1ª leitura, os tementes a Deus deveriam rejeitar as situações intoleráveis de injustiça, de arbitrariedade, de opressão, de desrespeito pelos direitos dos mais pobres e débeis. Se pretendiam viver em comunhão com o Deus santo, deveriam banir do meio da comunidade as injustiças e as arbitrariedades cometidas sobre os mais frágeis - nomeadamente sobre os estrangeiros, os órfãos, as viúvas e os pobres. Essa era uma das condições para viver em Aliança com o Senhor.

 

Na mesma linha vai o exemplo do Apóstolo Paulo e da comunidade de Tessalónica, conforme a segunda leitura. Os tessalonicenses eram uma comunidade exemplar, que vivia animada e empenhadamente o seu compromisso cristão, apesar das dificuldades e da hostilidade do meio. Isso mostra que o Evangelho se torna um dinamismo de vida, de solidariedade e de salvação para todos os povos quando é acolhido na alegria, mesmo em tempo de sofrimento e de perseguição. 

 

Na realidade, a fé liga-nos a uma longa cadeia que vem de Jesus até nós, gerando uma imensa família de irmãos espalhados pelo mundo inteiro. Não é apenas algo pessoal e desencarnado da realidade social. Temos consciência de pertencer a esta família de fé e sentimo-nos unidos e solidários com todos os irmãos em Cristo?

 

São esses vários aspetos de um amor cristão integral, empenhado e generoso na nossa sociedade que o Papa Francisco aprofunda e propõe, da forma clarividente, incisiva e profética que o caracteriza, a todos os crentes e homens de boa vontade, nos vários níveis do seu envolvimento e responsabilidade na Igreja e no mundo. Sempre segundo o Evangelho e exemplo de Jesus, à luz de passagens como a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), que ele interpreta e atualiza na sua nova Encíclica “Todos Irmãos”. O seu propósito é ajudar-nos “a caminhar na esperança”, “pensar e gerar por entre as sombras de um mundo fechado” e indiferente, um mundo aberto, fraterno e solidário (cf: C. I-III).

 

Muitos santos de ontem e de hoje entenderam bem esta profunda articulação do maior e duplo mandamento do amor. Entre eles, S. Vicente de Paulo, pai dos pobres, defensor dos órfãos e viúvas que, nos passos de Jesus, testemunha como se  vive um  amor inventivo até ao infinito, afetivo e efetivo, corporal e espiritual, sem fronteiras; ou o jovem Carlo Acutis, beatificado também em Assis no último dia 11, que viveu intensamente o amor eucarístico e a devoção mariana, com um testemunho de fé radiante e uma entrega generosa aos mais pobres.

 

O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida... Será que a nossa vida é feita de atenção e serviço aos irmãos, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social? Que o Espírito de Jesus nos ajude a compreender cada vez mais que a nossa oração, a Eucaristia, os demais sacramentos e práticas cristãs apenas terão sentido pleno se nos levarem a amar e servir os irmãos. 

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