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A pandemia... e os abraços proibidos

11 de Agosto de 2020, por JOÃO PIRES SILVA

Bruno Cunha

Inês Espada Vieira

João Pires Silva

Luciano Ferreira

Mafalda Guia

Miguel Carvalho

Pedro Guimarães

Ricardo Cunha

Suzana Ferreira

Encanta-nos aos primeiros olhares. Um sorriso rasgado, aliado à serenidade e à majestade dos noventa e três anos da senhora Maria, anulam-nos quaisquer tentativas de valorizar o que nos conduz à sua presença. Ostenta uma figura frágil: estatura reduzida, franzina, grácil. Move-se como a subtileza das brisas suaves, através de passinhos miúdos e vacilantes. Na face, nota-se um contínuo bem-quer: uma fisionomia cativante e acolhedora, A senhora Maria fulmina-nos permanentemente com intensos lampejos de afecto.
 

A simpatia com que nos recebe em sua casa - um apartamento despojado de superficialidades como a condómina -, condiz com o ambiente aprazível que ali se respira, convidando a estadias sem pressa e a conversas prolongadas. 
 

Sempre que a ocasião lhe convém, a senhora Maria apela a dádivas e a favores, uns e outros antecipadamente exaltados e agradecidos. A vida te-la-à marcado sobremaneira, ao ponto de lhe inculcar estas posturas de rogação. 
 

Da família nuclear pouco lhe resta: o marido e a filha mais próxima,  partiram para o Pai, um após o outro; dos outros filhos e de alguns netos, que os tem, sobram distâncias e avolumam-se silêncios. Fora deste quadro de solidariedades de sangue, socorre-se dos apoios que a Paróquia de São Tomás de Aquino, o respectivo Centro Social e o Grupo Vicentino (São Vicente de Paulo) lhe proporcionam.
 

Nos dias úteis, era evidente o seu regozijo pelos regressos ao Centro Social. Ali, os tempos eram mais breves. Tinha companhia, muitas companhias, e havia sempre animação. A expectativa das refeições, o convívio com os demais utentes, o apoio carinhoso e empenhado das colaboradoras do Centro, os conselhos do médico voluntário, e ainda as picardias mundanas que os idosos sempre aprontam. Sinais de vidas frágeis, de vidas a caminho dos finais de tarde. 
 

Do Grupo Vicentino esperava - e recebia - outros apoios: visitas com abraços, com palavras quentes e solidárias, e também com roupas e alimentos: “sinais palpáveis de Esperança”.
Da Paróquia, chegava-lhe a Sagrada Comunhão em visitas dominicais. Um momento de especial completamento, na solidão das suas horas longas. 

Entretanto, pronunciaram-lhe palavras que ela não conhecia: vírus, pandemia, confinamento; e indicaram-lhe uma panóplia de constrangimentos associados. 
 

A fragilidade que o peso dos anos convoca, associada às maleitas de que padece, neutralizaram a escassa disponibilidade da senhora Maria para entender o que verdadeiramente se estava a passar: deixar de poder ir para o Centro, que encerrara; não poder movimentar-se livremente fora da sua casa; o genro-viúvo a ter de se justificar às autoridades para a poder visitar e assistir; da Paróquia, cuja igreja passou a estar encerrada ao culto, deixou de lhe chegar, aos domingos, a Hóstia consagrada; do Centro continuou a receber apoio domiciliário, porém com cuidados nunca vistos: as máscaras, as luvas, as desinfecções ... os medos de contágio. Tudo a afastá-la do ambiente que, outrora, a animara, e do convívio das pessoas que amava. Como lhe passou a doer esse estigma de reclusão, de quase rejeição!
 

«Estamos no fim do mundo!», desabafava amarguarda, logo que os primeiros alívios do confinamento permitiram algumas visitas. Ainda assim, nenhuma ambiguidade na solidez da sua fé. Continua a ser inspirador escutá-la, quando se lhe apresenta o Pão da Vida: «Senhor, eu não sou digna que entreis em minha morada...». Palavras que lhe saiem das profundezas; o coração a falar. 
Aqui e ali, a senhora Maria já vai confundido algumas passagens do rito. Porém, na presença do Pão consagrado agiganta-se, chegando mesmo a apoucar a nossa frágil crença. 
 

Dos tempos de confinamento, sobejam agora as consequências: as pernas da senhora Maria passaram a reclamar acrescidos e redobrados repousos, e tendem a ficar trôpegas; os pés já ostentam inchaços incomuns, sendo mesmo notórias algumas feridas; os ouvidos, mercê dos silêncios impostos, estão a acomodar-se, de dia para dia, à ausência de sonoridades; os braços, as costas, os joelhos... Contudo, neste ambiente de estorvos, é a falta de abraços que mais lhe doi, e que lhe vai furtando a capacidade de sorrir. «Estamos no fim do mundo!», lastima-se enfaticamente.
 

Entretanto chegou o mês de Maio. Maio, a lembrar-lhe Fátima. E os jovens do Grupo Vicentino a baterem-lhe à porta, aliviando o fardo da sua pesada solidão. Vinham trazer-lhe o aroma de uma presença amiga; um punhado de palavras solidárias que apenas se proclamam por amor; também um saco com bens consumíveis, fruto de dádivas de outros irmãos mais afortunados. Contudo, a principal necessidade da senhora Maria era o calor de um abraço. Um abraço com afectos. Um abraço, simplesmente. E os jovens, com a generosidade reprimida, a dizerem-lhe que o abraço teria de ficar para outra altura. Tinham sido proibidos os abraços. 
A senhora Maria continuou a não perceber os efeitos da pandemia. Ficou triste. Chorou. Rezou.

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