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A mulher na Igreja*

23 de Julho de 2020, por INÊS ESPADA VIEIRA

Bruno Cunha

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Pensar sobre o lugar da mulher na Igreja hoje é pensar sobre o lugar da mulher na sociedade contemporânea. Mas esta frase simples e bem-intencionada encerra desde logo dois equívocos: o de que há uma sociedade contemporânea, e o de que há um lugar para a mulher. 

No que se refere ao primeiro equívoco, não o podemos contornar num texto desta dimensão e por isso socorremo-nos de um ajuste geográfico-cultural: falemos de sociedade contemporânea ocidental, referindo-nos às democracias de raiz liberal, europeias e americanas. 
Quanto ao segundo equívoco, superemo-lo desde já: não há um lugar para a mulher, pois o lugar das pessoas, homens ou mulheres, em qualquer idade, é exatamente o mesmo. Ou melhor, é qualquer lugar em que sejam precisos ou em que queiram estar, dentro de um lugar-primeiro que é o nosso mundo, a casa comum que habitamos e que, como nos instou o Papa Francisco na Encíclica Laudato si, devemos cuidar com a devoção, a gentileza e a responsabilidade de quem possui um tesouro.

 

Não adianta fazer muita ginástica retórica para convencer quem não quer ouvir que a justiça é um valor superior ao da tradição; não adianta ainda debater as vantagens da igualdade de género; não vale a pena, sequer, deixar-se enredar pela controvérsia sobre a insuficiência da definição, do que é o género, do que é a igualdade. 
Sejamos claros: às mulheres, como aos homens (às meninas, como aos rapazes), devem ser dadas as mesmas oportunidades de desenvolverem as suas capacidades intelectuais e afetivas, de escolher o futuro profissional, de decidir sobre as suas vidas privadas, de intervir nas comunidades a que pertencem, de mobilidade geográfica, por exemplo.

 

Num mundo cheio de desigualdades (a desigualdade de género é apenas uma), as nossas sociedades reconhecem os mesmos direitos de cidadania aos homens e às mulheres. Porém, somos todos herdeiros de uma milenar história patriarcal. Profundamente enraizado por exemplo nas estruturas da língua, este domínio masculino do quotidiano apresenta-se também em aspetos tão díspares como as distintas expetativas que temos em relação ao comportamento social dos indivíduos, nas diferenças salariais entre homens e mulheres, no conteúdo de mensagens publicitárias, na propriedade, na designação da conjugalidade (“a mulher de”…), entre outros aspetos.
Todavia, onde a desigualdade parece ser mais exuberante é na sub-representação das mulheres em tantas e tantas áreas da vida pública e privada. Se temos dúvidas, basta ler a imprensa ou ouvir as rádios, nacionais ou regionais, e observamos uma esmagadora presença masculina, tanto nos protagonistas como na própria narrativa. Esmagadora, sim, porque passa por cima, calca, omite, uma parte das pessoas. E perpetuar uma injustiça milenar não é bom. Sem mais adjetivos pomposos e até mais exatos, simplesmente, isso não é bom. Para ninguém, aliás.
Não é bom que só uma parte das pessoas possa falar e seja ouvida. Não é bom que só uma parte das pessoas – sempre a mesma parte, neste caso – seja tida em conta e que tome para si as contas do mundo. 
Olhemos uma fotografia do hemiciclo da Assembleia da República e façamos como a revista Elle fez em Inglaterra: retiremos os homens presentes; quantas mulheres ficam? Façamos o mesmo exercício para uma hipotética foto conjunta dos conselhos de administração das maiores empresas portuguesas, ou para uma fotografia dos comentadores e cronistas habituais dos media em Portugal. Quantas mulheres “restam”?
E nas reuniões da Igreja portuguesa? E nos encontros da Igreja no resto do mundo? Se retirarmos os homens, o que “sobra”? Às vezes pouco, às vezes nada…

 

Não queremos uma sociedade e, portanto, não queremos uma Igreja, em que as mulheres sejam aquilo que resta, em que o seu empenho seja reduzido ao silêncio, à invisibilidade das tarefas de apoio. Não ao serviço, que deve ser o de todos, mas à servidão (veja-se o comentário, em 2013, do Papa Francisco à carta apostólica Mulieris dignitatem, de S. João Paulo II). 

 

É preciso olhar com consciência para a nossa realidade e tentar intervir nela para a melhorar. Ser exigente com os outros, mas exigir de nós também ações concretas e empenhadas na luta contra as injustiças veladas do dia-a-dia, na procura da igualdade e sobretudo da presença ativa de mulheres e homens nos vários domínios da vida pública comum. Não nos encostemos à tradição, por exemplo, ou a uma leitura exclusivamente literal da Bíblia, palavra revelada, necessariamente mediada por milénios de história humana e presença divina, num caminho construído com esperança.

 

Numa leitura que nunca se esgota, muito se tem meditado e escrito sobre a presença das mulheres na Bíblia, em particular sobre a importância de Maria, mãe de Jesus. É bem certo que no geral as mulheres são personagens secundárias adjuvantes (para usar terminologia narratológica) e não protagonistas. Ainda assim, essas personagens secundárias não são de todo insignificantes, nem na Bíblia, nem na história, nem no presente.
Quando Maria Madalena “e a outra Maria” do Evangelho de Mateus foram ver o túmulo, descobriram-no vazio. O anjo instou-as a que avisassem os discípulos. Entre a alegria e o medo, elas correram a dar a boa nova, “E eis que Jesus veio ao encontro delas” (cf. Mt, 28:1-10). A nota de rodapé de Frederico Lourenço à citada passagem da sua tradução dos quatro Evangelhos (Bíblia, volume I, Quetzal) deixa-me a pensar na importância dos pormenores. Escreve o tradutor: “Muitas figuras vão ao encontro de Jesus nos quatro Evangelhos, mas a presente passagem é a única em que o padrão é invertido: é Jesus que toma a iniciativa de ir ao encontro de alguém (neste caso, das duas Marias).” Neste caso, acrescento eu, das duas mulheres e, nelas, ao encontro de todas as mulheres. 


Inês Espada Vieira
 

* Artigo publicado pela primeira vez na Revista Mensageiro de Santo António em setembro de 2017

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