Laudato Si: uma encíclica missionária?

09 de Julho de 2020, por RICARDO CUNHA

Bruno Cunha

Inês Espada Vieira

Luciano Ferreira

Pedro Guimarães

Ricardo Cunha

Artigos

Suzana Ferreira

Assinala-se neste ano atípico de 2020 o quinto aniversário da encíclica do Papa Francisco Laudato Si’ – sobre o cuidado da Casa Comum. Este documento, com cunho ecológico, é uma chamada de atenção para a crise humana, social e ambiental que temos entre mãos e desafia-nos a todos a cuidar da nossa Casa Comum, o planeta terra. Laudato Si é uma marca histórica da Igreja no século XXI, quer pela sua aceitação no mundo da cultura e da ciência, quer pelo seu impacto sem precedentes na 21ª Conferência das Nações Unidas do Clima de Paris 2015 (COP21), onde o documento foi citado por dez líderes mundiais. 
 

Dado o seu impacto, este documento do Magistério da Igreja adquire por si só o “estatuto” de missionário porque dá a conhecer ao mundo Jesus Cristo e anuncia o Seu Evangelho. 
 

A consciência da ampla aceitação da encíclica nas elites culturais e políticas por todo o mundo cumpre, a partir das virtudes vicentinas da simplicidade, humildade e mortificação, o seu caráter universal: dirige-se a todos os homens de boa vontade, sejam ricos ou pobres, já que ninguém está excluído desta interpelação a agir.
 

A opção preferencial pelos mais pobres que nos desafia o Papa Francisco é também o desafio de S. Vicente de Paulo. Cada um, no seu tempo e na sua realidade, percebeu a centralidade dos pobres no Evangelho de Cristo e a necessidade de ir ao seu encontro como Missão da Igreja. O Papa não se esquece que os pobres são os que mais sofrem com as consequências das alterações climáticas e que por isso se veem muitas vezes obrigados a fugir das suas casas em busca de terras férteis e alimentação. São também os pobres os causadores de problemas ambientais porque muitas vezes não têm os meios e o capital humano necessários para fazer face aos problemas ambientais. Por outro lado, esta encíclica relembra que os ricos consomem mais recursos do que aqueles que precisam e mantêm padrões de vida ambientalmente insustentáveis. Esta consciência da interdependência humana na luta pelo cuidado da casa comum está alicerçada no amor à humanidade. Não um amor enquanto palavra cheia e ao mesmo tempo vazia, mas a partir da marca cristã do amor, a sua concretude, onde através de ações concretas que são simultaneamente expressão do amor de Deus, que sustenta a dignidade e fraternidade humanas e a razão fundamental de toda a criação, somos interpelados ao serviço do Bem Comum, a sair do nosso egoísmo e a colaborar na construção da Civilização do Amor, alicerçada no reconhecimento da dignidade humana e no destino universal dos bens, na promoção da paz e da vida e no perdão como condição indispensável.

 

Ricardo Cunha

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