A Educação Moral e Religiosa - viver sempre um "novo normal" (II)

O atual contexto de pandemia trouxe inúmeras alterações ao nosso quotidiano e posicionamento perante a vida, aos quais o fenómeno religioso não ficou à margem. Em Portugal, uma das consequências da pandemia é a diminuição do número de fiéis nas celebrações religiosas católicas, aliado a um certo indiferentismo religioso e moral que tem vindo a crescer na nossa sociedade e, como não poderia deixar de ser, nas nossas escolas.

No contexto educativo a indiferença religiosa assume essencialmente a tipologia cognitiva, quer isto dizer, que a religião não é objeto de tipificação específica e, por isso, não faz eco na vida quotidiana e não estrutura a biografia do indivíduo. A religião, que anteriormente compunha com propriedade o conjunto de conhecimentos da generalidade dos alunos, perdeu o seu destaque e passou a ser um legado de conhecimento apenas para alguns que o procuram.

Sobrepõe-se a esta indiferença cognitiva uma indiferença existencial, numa dimensão antropológica mais larga, que ocupa o lugar do estado de consciência e que habita o quotidiano do indivíduo e lhe permite não querer, não saber e não tirar consequências.

O fenómeno do indiferentismo torna-se ainda mais paradoxal quando nos apercebemos que vai além de uma anulação ou neutralidade face ao religioso, uma vez que as religiões estão omnipresentes nos media, nas festividades, nas redes sociais e no quotidiano dos jovens e adolescentes. Como consequência desta indiferença, observamos uma exculturação do religioso, que ao nível global, se traduz pela quebra da transmissão de conhecimentos sobre religião e, ao nível individual, indica que a cultura religiosa não impregna o sistema de valores e as representações coletivas.

Sendo verdade que obrigatoriamente os alunos acedem a conhecimentos sobre o fenómeno religioso em diversas disciplinas, em especial nas ligadas à área científica das ciências históricas e das humanidades, também é verdade que os conhecimentos, capacidades e atitudes veiculados nessas disciplinas são manifestamente insuficientes para dotar os alunos de conhecimentos e competências que lhes permitam compreender o mundo que os rodeia. Neste ponto, o Ensino Escolar da Religião pode dar um contributo qualificado, embora como sabemos, situado na manifestação da vontade por parte dos Encarregados de Educação ou do aluno quando maior de 16 anos, em aceder a essas aprendizagens, situação que traduz um certo indiferentismo curricular face ao fenómeno religioso. Escolhe apenas quem quer e quando quer, mesmo sabendo não tirar benefícios académicos diretos, como sejam a inclusão da classificação dessa disciplina para o cálculo da classificação final do Ensino Secundário ou para a atribuição de bolsas de mérito ou ainda para o próprio quadro de mérito de muitas escolas. A opção situa-se na escolha entre mais uma hora de intervalo ou mais uma aula ou na pior das hipóteses perder uma manhã/tarde sem aulas. Sabendo toda a comunidade educativa destas particularidades, não faltam episódios de diretores(as), professores(as), funcionários(as) e Encarregados(as) de Educação que tecem os diversos e inoportunos comentários sobre a disciplina, mostrando indiferença à frequência (ou não) por parte dos alunos, à sua classificação ou até às dificuldades que o professor de EMR possa manifestar. Globalmente tolera-se mais a EMR do que se aprecia a sua presença nas escolas. Na hierarquia curricular, a EMR ocupa um lugar acessório, que não merece que as equipas pedagógicas se debrucem sobre a questão. Neste contexto, cabe ao professor de EMR a tarefa extra de tentar inverter esta cultura escolar e promover na sala de aula um ambiente educativo que valha o esforço da presença e empenho dos alunos.

Neste cenário e se queremos dotar os nossos alunos de uma literacia religiosa que lhes permita perceber o mundo que os rodeia é necessário repensar afincadamente o lugar do Ensino Escolar da Religião nas escolas e procurar soluções que não deixem a maioria dos alunos à mercê de um acesso ao conhecimento sobre religião exclusivamente através dos media, dos jogos, das redes sociais e tradições familiares, sem acesso a um saber sistematizado, organizado e acima de tudo científico. Percebendo que o atual modelo fica aquém das expetativas, seria importante desenhar um Ensino Escolar da Religião promotor de uma laicidade da inteligência em detrimento da ignorância, que se poderia traduzir numa conceção curricular da EMR como disciplina opcional, mas não facultativa. O leque de opções disponíveis poderia ter como pilar o respeito pela confissão religiosa do aluno e respetivas famílias, através de uma abordagem racional do fenómeno religioso para combater fanatismos e desenvolver a tolerância, para além da criação de uma opção não confessional para os encarregados de educação/alunos que não se configuram em nenhuma das opções confessionais disponíveis.

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